24.5.08

Cortiços: Cia Luna Lunera




A Cia Luna Lunera (BH) montou Cortiços, baseado na obra de Aloísio Azevedo. O grupo convidou o coreógrafo e bailarino Tuca Pinheiro, que fez a direção e coordenação dramatúrgica. O espetáculo faz parte do projeto Observatório de Criação.

Cortiços explora um caminho corporal da abordagem cênica, utilizando também de elementos visuais, como centenas de garrafas com líquidos coloridos, que também fazem parte do discurso. O cenário é um piso de madeira cercado de garrafas, com uma tina ao fundo e sobre a qual cai interminavelmente água, uma escada aberta e, fora dessa configuração, uma quadro negro móvel.

Mas o que vem do teatro? Configuram-se personas, inevitavelmente. E surge uma fábula. Porém, tanto as primeiras quanto a segunda não conduzem a cena num vínculo dramático, mas antes são exploradas áreas fronteiriças, que apontam para o universo do teatro pós-dramático, seguindo as análises de Lehmann. Entre a consecução da personagem com o lugar instilam-se outros espaços, outras referências e discursos, incluindo metadiscursos. Uma das atrizes, por exemplo, utiliza o quadro para marcar as ocorrências e embates dos atores, definindo as escolhas processuais, discursando sobre o processo e colocando dúvidas. Assim, entendo que o teatro não é o lugar opera vinculos entre personagem e lugar. Esta é apenas uma de suas possibilidades: o teatro dramático. Cortiços navega nas fronteiras do sentido, recortando o texto a partir de alguns elementos (o casal, o proprietário, a negra), os espaços etc. A seleção musical dos sambas e a sonoridade mais abstrata configuram, além disso, uma condução do fluxo material e expressivo – um nome mais apropriado para o que chamamos comumente de texto cênico (que não é o texto literário e nem o texto dramatúrgico).

O movimento corporal, por sua vez, tanto comenta a cena quanto produz estados intensivos que realimentam as personas e desfazem, ao mesmo tempo, os vínculos do teatro dramático. Isso ocorre principalmente porque introduz planos heterogêneos à ação dramática. Esta permanece, ora submergindo ora reaparecendo, como se o grupo bebesse nessa fonte já bastante conhecida e, ainda assim, arriscasse a caminhar pelo deserto mais luminoso e árido, onde não há mais personas, mas somente corpos e forças atuando sobre corpos.

22.5.08

Improvisions: Marcelo Kraiser






Improvisions: blog de Marcelo Kraiser, artista plástico, poeta,criador de graphonópticos e professor. Marcelo Kraiser é, além disso, um estudioso do pensamento nômade de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Suas aulas na Escola de Belas Artes na UFMG focam principalmente o pensamento criativo e a experimentação nas artes. Foram nessas aulas que dei uma guinada na minha formação em filosofia, passando a trabalhar os conceitos de Deleuze e Guattari na minha dissertação de mestrado e pesquisa em treinamento em e como criação cênica.

Improvisions traz imagens e sons, videopoemas, videodança e outras informações sobre as convergências e ressonâncias entre artes e multiplicidades.

Referências:

Imagem:
Revista Desfaces, por Marcelo Kraiser e Vera Casa Nova

27.4.08

Intervenção cênico-urbana em São Paulo

São Paulo, Virada Cultural - um evento que reúne um zilhão de apresentações artísticas e outras ocorrências culturais, em diversas regiões e espaços da cidade, 24 horas. Ontem à noite vi uma cidade ocupada pelas pessoas, de todas as idades e gostos, de todas as tribos e escolhas. Uma coisa da urbe, da multidão, da felicidade de andar a pé pela cidade, noite adentro.

Lembrei-me, guardadas as proporções, da Zona de Ocupação Cultural, projeto que acontecia no Centro de Cultura Belo Horizonte, quando eu estava à frente do espaço e, junto com uma equipe maravilhosa realizamos esta entre outras ações. A Zona acontecia de meio-dia às 02 da manhã, com apresentações artísticas, debate, intervenções artísticas no espaço urbano e toda sorte de agitação molecular. Obviamente, não se compara com a Virada Cultural, em São Paulo, onde é tudo ao mesmo tempo e de uma só vez, num mega evento em múltiplos pontos pela cidade. Além disso, a Zona carregava os traços de uma mini-TAZ (Zona Autônoma Temporária),com ênfase em arte processual e experimental. Os artistas eram convidados a ocuparem os espaços do Centro de Cultura Belo Horizonte.

Vamos à intervenção cênica :"A última palavra é a penúltima". A encenação ocorre numa passagem subterrânea no Viaduto do Chá, com duração média de 40 minutos. O projeto é uma parceria dos grupos Teatro da Vertigem (São Paulo), Zikzira Teatro Físico (Belo Horizonte) e La Otra Orilla (Peru).


Eis os aspectos que alinhavo:

1. Intervenção cênico-urbana é o nome para ações que se realizam na vida da cidade, pervertendo e resignificando espaços, compondo com os elementos constitutivos desses locais. Conecta-se com a criação cênica chamada de site specific, que define uma obra construída especificamente para um local. Há uma conceituação interessante do Itaú Cultural sobre o site specific. Richard Shechner, por exemplo, fala de um environmental theater.

2. O espaço-passagem tem duas vitrines laterais, nas quais o público entra e senta em cadeiras dispostas no local: uma média de 25 para cada vitrine. A iluminação joga com os elementos de visibilidade/invisibilidade, já que, dependendo dos jogos de luz, os filtros dos vidros tornam as vitrines transparentes ou opacas, conforme a cena. Enquanto isso, os performadores e outros públicos transitam pelo espaço, misturando-se à cena, gerando uma zona de indiscernibilidade entre os dois. O público que passa juntamente com os atores não vê as pessoas de dentro das vitrines. A trilha sonora cria, juntamente com luz, espaços e ações um ambiente de imersão.

3. A cena joga com o que sabemos e não sabemos. Com o que percebemos e não percebemos. Nesse aspecto define muito bem a função de uma composição cênica-corpórea que dialoga intensivamente com o espaço cotidiano da cidade e, de modo mais preciso, com um lugar específico (que não o edifício teatral).

4. Pode ser questionado se, em vez de intervenção urbana, não seria mesmo teatro, dadas as condições de haver platéia etc. São as duas coisas ao mesmo tempo - é o que eu penso. As potências do simulacro estão misturadas com a interferência do real na cena (público que passa, o cão correndo na passagem, cujos latidos ouvimos em meio a trilha), as dimensões e características do lugar. O que importa, antes de tudo, é a capacidade de transformar um espaço voltado para um fim (quando passo ali, cotidianamente, estou metido numa relação de meios-fins em que o mundo está submetido ao uso que faço dele) num espaço habitado por forças e intensidades. John Cage dizia que se você quer ver teatro basta sentar num banco de praça e enquadrar um ver e um ouvir. Aliás, Cage ouvia música como teatro. Desse modo, teatro estaria além das chamadas convenções teatrais.

5. A encenação é uma composição de imagens e sons. Imagens do espaço real, imagens do espaço transformado, imagens de corpos vivendo as potências do simulacro e de corpos reais.

6. O ator e performador Paulo Rocha, do Conjunto Vazio (em Belo Horizonte), que vem realizando intervenções nas rotatórias da cidade, tem discutido algumas questões sobre essa cena outra. Paulo, que também assisitiu ao evento, lembra que muitas tentativas de realizar performances que dialogam com espaços tendem a trabalhar equivocadamente a partir do que se pode chamar de ator-interpretativo. Ou seja, pensam no ator que interpreta personagens, agora "solto" numa "performance". Acrescento que tais ações muitas vezes se equivocam porque os atores ou performadores não sabem com o que estão compondo, justo porque não há uma situação teatral que os guie em termos de onde, quem e o quê. Trata-se de outro plano de criação: a de um ator-compositor passando pelo performador (no campo da performance art). No caso de A última palavra é a penúltima, Paulinho lembra a característica minimalista das ações. São ações detalhadas, de forte impacto visual e cênico.Imagens que dizem por si só.

Referências:

O que é performance - por Richard Shechner

Neste blog: A última palavra é a penúltima: intervenção urbana.

Dossiê: Intervenções Urbanas- blog Vírgula Imagem, de Marcelo Terça Nada
COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de
experimentação. São Paulo: Perspectiva, 1989.
______. Working in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva,
1998.
______; GUINSBURG, J. Do teatro à performance: aspectos da significação da
cena. In: SILVA, Armando Sérgio da (Org.). J. Guinsburg: Diálogos sobre teatro.
São Paulo: Perspectiva, 2002

Encontro com o Prof. Tomio Kikuchi

Passei três dias do último feriado de Abril participando do seminário Destino: drama humano do viver e morrer, com o Prof. Tomio Kikuchi, orientador da alimentação vitalizante (também chamada de macrobiótica), estrategista, pensador e mestre de Aikido. O evento foi promovido pelo Restaurante-Escola Fonte de Minas, em Belo Horizonte.

Kikuchi traz uma sabedoria pragmática, avessa a todos os dogmatismos, principalmente ao mercantilismo esotérico, que torna as pessoas cada vez mais dependentes de crenças e outras mercadorias. Kikuchi é discípulo de George Osawa, criador da macrobiótica.

A base dos ensinamentos de Kikuchi é a auto-educação pela alimentação. O mestre adentra por veredas que conectam pensamento estratégico e sobrevivência. Uma de suas expressões: “o inimigo é inevitável, inexorável e inesgotável”.

O desequilíbrio é, para o professor, o ponto de partida. E não há equilíbrio em ponto de chegada. Você surfa em ondas desequilibrantes e sucessivas. Ou, afunda. Carlos Rennó, poeta e letrista que foi aplicado na macrobiótica por Gilberto Gil quando organiza o livro Toda as letras, deu uma entrevista à revista Vida Simples, na qual expõe um pouco a dinâmica dos ensinamentos de Kikuchi:

"Você muda a partir do seu sangue. Quem transforma seu sangue transforma a qualidade de seu pensamento, de seu sentimento, da sua vontade. E aí muda sua vida." (...) "Na verdade, a vida muda dinamicamente, para melhor e para pior e para melhor e para pior e para melhor, sendo que cada pior e cada melhor não são como os anteriores, mas diferentes. Porque o processo não é linear, mas espiralado. Não existe nada absoluto. Assim, só nos são possíveis a liberdade e a felicidade relativas."


Mais informações:

Restaurante Fonte de Minas. Rua Guajajaras, 619, casa IX. Vila Werneck - Centro - Belo Horizonte - Tel: (21) 3224-9630
Restaurante Satori (Prof. Kikuchi). Praça Carlos Gomes, 1o andar - Liberdade - São Paulo
Tomio Kikuchi - wikipédia
Viva o desequilíbrio. Revista Vida Simples.

13.4.08

A última palavra é a penúltima: intervenção urbana

A última palavra é a penúltima: atores Macarena Campbell (Zikzira) e Roberto Audio (Teatro da Vertigem)
Foto Nelson Kao - do site Vitruvirus

O Zikzira Teatro Físico (BH), o Teatro da Vertigem (São Paulo) e o Lot (Peru), estão realizando uma intervenção cênica numa passagem subterrânea da capital paulista, nos dias 12, 15 e 26 de abril de 2008. Numa entrevista (veja o vídeo), André Semenza, diretor artítico do Zikzira diz que a intervenção não parte de nenhuma história, e "toda vez que o ator quer construir um drama, eles retiram". Esse procedimento traduz o plano de experimentação de um teatro perfomativo (Josette Féral), pós-dramático (Hans-Ties Lehmann) etc. O mote é um texto do pensador Gilles Deleuze.

Veja mais:

Noticiário do site Vitruvirus (foto de Nelson Kao)
Uol - diversão e arte (vídeos e reportagens)
Zikizira Teatro Físico: espaço ação e intervenções urbanas

6.4.08

O neo-materialismo de Manuel DeLanda

Exponho trechos de uma entrevista em que o filósofo e artista mexicano, Manuel DeLanda, radicado nos Estados Unidos desde 1975, aborda o que ele chama de neo-materialismo. O conceito de neo-maerialismo de DeLanda é interessante porque modifica concepções sobre o tema já um pouco desgastado e preso às concepções marxistas.

Delanda teve uma fase voltada para o cinema experimental e, mais recentemente, tem trazido, também, importantes contribuições no campo da filosofia e das ciências sociais, tecendo relações entre filosofia e ciência, envolvendo teoria do caos, complexidade, sistemas auto-organizados, inteligência artificial, economia etc. Seus textos trazem a influência direta de outro pensador, Gilles Deleuze. Em tempo: Deleuze e Guattari, por exemplo, falam de uma materialidade energética e expressiva (vide Mil Platôs).

Faço uma tradução livre do inglês, de trechos da entrevista, concedida a Konrad Becker e Miss M. em Virtual Futures:

"Obviamente, eu coloco a palavra “neo” para distinguir do materialismo marxista. A única coisa boa que o marxismo nos deu foi seu materialismo, a idéia de que é necessário explicar a ocorrência das coisa sem apelar para Deus, sem apelar para as essências platônicas, sem apelar para qualquer coisa transcendente. Obviamente que os marxistas, desde que eles compraram a dialética Hegeliana, não são definitivamente verdadeiros materialistas, pois a dialética não é algo deste mundo. Lênin, mesmo que eu deteste as coisas que ele fez, se opôs aos filósofos idealistas, para os quais tudo o que existe é fruto de nossa percepção. Ao dizer que existe uma exterioridade do mundo, sendo necessário levar isso em conta, dizemos que nem tudo é informação, que nem tudo é idéia, que nem tudo é armazenamento cerebral. Que existe algo concreto a ser considerado.

Eu chamo isso de neo-materialismo e que é, de certo modo, uma filosofia antiga, mas que é nova quando, incorporando teorias de auto-organização, matéria e energia por si mesmas sem humanos e sem vida, são capazes de gerar ordem espontaneamente.

(...)

Neo-materialismo significa o conhecimento de que nós temos negligenciado a matéria por um longo tempo, num percurso que remonta a Aristóteles. Aristóteles já havia separado a causa formal da causa material em sua classificação das causas. Essa classificação sedimentou-se na filosofia Ocidental e expandiu-se pelo século 20.

Tudo isso remonta aos Gregos, para os quais a matéria era uma espécie de receptáculo inerte para as formas e os humanos viriam dessas formas que eram impostas ao recipiente inerte. Isso tem certa origem nas classes e castas, porque, voltando aos gregos, o ferreiro, o cara que trabalhava com a matéria, vivia fora da cidade, gastando todo o seu dia diante do fogo, lidando com metais, e o que é mais importante, jamais vindo à cidade para usar a palavra. Assim, os cidadãos gregos não confiavam num ferreiro: “Ele não fala. Ele não vem aqui discutir”. Escravos ou ex-escravos e trabalhadores manuais, alguns eram trabalhadores de artesanato – sejam mulheres na cozinha ou ferreiros trabalhando com metais ou artistas populares criando objetos – todos eram considerados como atividade secundária, de uma atividade inferior. A atividade intelectual, ao contrário, esta era considerada real, que é o ato de lidar com os conceitos.

Neo-materialismo significa revelar o sentimento que nos leva a negligenciar pessoas por um longo tempo, descobrindo que existe um modo de conhecimento muito mais interessante, relativo a habilidade de lidar com a matéria – na cozinha, na oficina do ferreiro, na oficina de tapeçaria. Relacionar uma estoque mental de representações e conceitos é interessante, também, mas isso é mais interessante quando vem de um conhecimento direto e sensual da matéria”.


Referências:

Site com informações e textos de Manuel DeLanda na biografia compilada por Tom Tyler

A Thousand Years of Nonlinear History - Zone Books (September 18, 2000)

A New Philosophy of Society: Assemblage Theory And Social Complexity -Continuum International Publishing Group (November

War in the Age of Intelligent Machines - Zone Books (December 2006, 1991)

Intensive Science & Virtual Philosophy - Continuum International Publishing Group; New Ed edition (May 2005)

Veja e escute as aulas de DeLanda no Youtube

DELEUZE, Gilles e GUATTARRI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Volume 1. Tradução deAurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995a.

______; ______. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Vol.2 Tradução de Aurélio
Guerra e Célia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995b.
______; ______. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 3. Tradução de
Aurélio Guerra Neto et. alii. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.
______; ______. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 4. Tradução de Suely
Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1997a.
______; ______. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. 5. Tradução de Peter
Pál Pelbart e Janice Caiafa – São Paulo: Editora 34, 1997b.


30.3.08

Zikzira Teatro Físico: espaço ação e intervenções urbanas



Zikzira Teatro Físico está realizando o projeto Solilóquio, na sede do grupo, o Espaço Ação - um lugar voltado para a difusão e a formação em teatro físico e criações híbridas, em Belo Horizonte. Fernanda Lippi e André Semenza estão instigando na cidade um olhar sobre as potências do corpo manifesto, que é o teatro físico.

"O zikzira espaço ação estreia o programa de 2008, ‘Soliloquios’, com solo internacional, do premiado bailarino Coreano Sung hwa Kim, no dia 09/10 de Maio, com bate papo, na Zikzira. Entrada franca. O zikzira espaço ação volta a todo vapor e dá continuidade a sua programação. Contemplado pelo Prêmio Cena Minas o espaço abre inscrições para o projeto “Solilóquio”.
Em 2008, o espaço da continuidade a seu programa variado e internacional chamado ‘ação contraria’, apresentando o projeto Solilóquio, onde demonstra o não confinamento nas suas formas de abordagem cênicas; dando a oportunidade para artistas que tenham uma característica singular a realização de cenas individuais, onde a forma dramática do discurso em que o corpo extravasa de maneira ordenada ou não, os seus pensamentos e emoções em monólogos ou solos, sem dirigir-se especificamente a qualquer ouvinte, criando assim um tempo no espaço onde o privilegio de testemunhar um ato de ações físicas se torna público.
Artistas brasileiros que tenham uma característica singular são convidados para apresentarem cenas individuais. As inscrições podem ser feitas pelo site
www.zikzira.com/actionspace. O projeto “Solilóquios” sinaliza para o incremento da dimensão inclusiva desta Companhia em diversos sentidos. Em primeiro lugar, todas as apresentações resultantes deste projeto serão objeto de gratuidade. Em segundo lugar, a realização de debates entre platéia e artistas pretenderá mais do que apenas a exposição de seus respectivos processos criativos: esperamos ainda contribuir para a elevação do juízo crítico do público presente em nossas apresentações. "

- Em tempo: O Zikzira está participando de uma intervenção cênica em São Paulo, no dia 12/03, juntamente com o Teatro da Vertigem e o grupo de teatro Peruano, Lot. A consultoria é de Antônio Araújo.

Referências:

www.zikzira.com/actionspace
ROMANO, Lúcia. O teatro do corpo manifesto: teatro físico. São Paulo: Perspectiva-
Fapesp, 2005.

Do Teatro Performativo e das vanguardas: anotações sobre o Encontro Mundial de Artes Cênicas


Abro algumas anotações sobre duas conferências do 6o Encontro Mundial de Artes Cênicas A cena emergente.

- Josethe Féral apresentou uma conferência intitulada “Por uma poética da performatividade”. O conceito de performatividade é colocada no lugar de teatro-pós moderno e teatro pós-dramático.

- Por que performatividade? Féral entede que o conceito de performatividade está no centro do teatro hoje. Ela discutiu o conceito de performance, que subtende duas visões: a) o conceito antropológico, estudado e difundido por Richard Schechner e b) o conceito oriundo do campo da performance art. Féral fará uso das duas fontes para construir a noção de performatividade. No primeiro caso, ela considera que o termo performance toma um sentido muito amplo, ao abarcar, na trilha de Shechner, todos os domínios da área da cultura, desde os ritos, esportes, eventos espetaculares etc. O conceito, então, perderia muito de sua eficácia teórica.

- Féral contextualiza essa linha de pensamento: no desejo político dos anos 80 de reinscrever a arte no cotidiano, combatendo ainda a separção entre cultura popular e cultura erudita. A obra que teria impactado decisivamente o contexto cultural nesta perspectiva é The end of humanism, de Richard Shecnner, publicada em 1982.

- Josette Féral ainda citou outro autor e obra, que não consegui anotar, e que teria focado a performace como pensamento artístico. Renato Cohen, um autor, criador e difusor desse campo no Brasil, seguia justo pelas trilhas de uma performance como linguagem. A performance, nesse sentido, redefiniu, para Féral, os parâmetros da arte e do teatro.

- Portanto, para construir o conceito de performatividade ela utiliza, numa via, a visão antropológica, via Schechner, para quem o ato performativo caraceteriza-se como um jogo ritual sob três aspectos: being (ser), doing (fazer) showing (mostrar). E noutra via, as pesquisas e criações da performance art.

- No teatro perfomartivo, não estamos mais na esfera da representação, mas no acontecimento - no real. Tais realizações não podem mais serem julgadas, diz Féral, como sendo verdadeiras ou falsas: elas simplesmente acontecem. Pertecem à ordem da ocorrência (eventness). Coloca-se em cena o processo, realçando o aspecto lúdico do acontecimento, num risco real do performer.

- Josette Féral mostra ainda que a performatividadade tem a ver com os elementos de desconstrução e intertextualidade, de escrita como obra performática (Derrida). Nesta ordem, pode-se ou não, no teatro performativo, que o objetivo seja atingido. Há uma desconstrução dos signos e o espectador descobre o prazer em participar disso. O objetivo da performance não é o de produzir signos, como é o caso do teatro, mas sim de flutuar na ambiguidade das significações.

- No final de sua exposição, ela pergunta se a performatividade, ao se contrapor à representação, não estaria se diferenciando também da teatralidade.

- Richard Schechner fez teleconferência intitulada “Cinco vanguardas… ou nenhuma”. Alguns traços por ele realizados me chamam a atenção: a) se ainda podemos falar de vanguardas quando em todos os lugares (festivais, encontros etc.) o que temos são os procedimentos e realizações da performance, das linhas de experimentação em arte; b) a economia global; c) a transformação da arte em evento (vide o 11 de Setembro nos EUA); d) as relações entre arte e ritual. Apesar de não estarem situadas no mesmo dia, a fala de Schechner me coloca muito mais em continuidade e contraponto à de Josette Féral - por isso as apresento juntas.

- A exposição de Schechner sobre a globalização e a performance, assim como a transformação da arte em evento trouxe muitas perguntas. Schechner citou dois comentários de artistas sobre os ataques às torres gêmeas, sem falar no seu comentário pessoal, já que ele assistiu à destruição do seu próprio apartamento. O que ele afirma é que não se tratava, naquele caso, de uma ofensiva puramente militar, mas de uma investida no plano mental, na transformação do evento num espetáculo: no efeito do medo. Schechner cita dois comentários de artistas sobre o ataque às torres gêmeas. Primeiro, o músico Karlheinz Stockhausen, que afirmou sobre o ataque terrorista: "O que aconteceu lá, e agora todos vocês têm de reajustar seus cérebros, é a maior obra de arte que já existiu"

- O segundo, Dario Fo, que disse ser a destruição de vidas produto da mesma lógica, capitalista, que mantém milhares de pessoas em condições sub-humanas no planeta, quando não simplesmente mortas dia após dia. O que chocou a mídia e muitas outras pessoas, diz Schechner, não foi a fala de Dario Fo, mas a de Stockhausen, porque este cita a arte. Equivale um ataque terrorista à categoria de obra de arte? É a pergunta que Richard Schechner deixa no ar.

- Muitas e muitas pessoas no mundo dedicam-se à arte como vida, realizando o sagrado, não buscando recursos ou fama. Lembremos que, no contexto do pensamento de Schechner a performance está ligada às dimensões simbólicas do agir humano, se posso dizer assim. Portanto, como ele mesmo disse na teleconferência, se há os que procuram na arte a chance de se tornarem inseridos no mercado, há os que se dedicam aos aspectos religiosos e cotidianos. Há, aqui, ecos de John Cage, que Allan Kaprow teria se apropriado ao falar de uma arte como vida, diferentemente de uma arte como arte. Se esta última segue na linha de tradição da obra de arte a outra tem por necessidade as pequenas ritualizações cotidianas que formam experiências possíveis experiências estéticas.

- John Cage, apropriando-se do Zen Budismo, trouxe esse plano possível: o de que não há nenhuma experiência do sagrado (em religião ou arte) que seja superior à nossa experiência cotidiana.

- Penso que, num mundo globalizado, de um capitalismo que se faz cognitivo e cultural, a performance art e os planos de experimentação passam a fazer parte daquilo que Maurizzio Lazzarato e Antonio Negri chamam de “trabalho imaterial”.

- Além disso, penso que Shechner está falando não somente de uma performance num sentido amplo, que é o antropológico (ritos e modos de ser, fazer e mostrar), mais do que isso, ele abala definitivamente as fronteiras e limites da arte, trazendo-a para o plano da mente e da impossiibilidade de categorização. A arte explode para fora dos seus redutos de desenvolvimento e passa por mutações.

20.3.08

O pensamento nômade de Ailton Krenak

Tive o prazer de almoçar com Ailton Krenak, cacique, líder da causa indígena e ambiental, coordenador da União das Nações Indígenas (conselho que reúne 180 tribos) e assessor do Governo de Minas Gerais para as questões indígenas. Túlio Marques, militante da causa ambiental e cineasta, foi quem me apresentou Ailton Krenak.

Fígura impar, diga-se de passagem. E com posses de excelente humor e vivacidade.

Enquanto almoçavamos um prato macrobiótico, Ailton Krenak foi traçando seu pensamento nômade. Um pensamento que não busca referências, estando sempre a caminho. E com um brilho nos olhos que vai ao encontro dos olhos de seu interlocutor, Ailton exercita uma fala leve e certeira.

Relatei a Ailton Krenak o meu primeiro contato com povos indígenas, aos cinco anos de idade, quando vi uma tribo, possivelmente de Maxacalis, entrando em Teófilo Otoni com uma série de movimentos e danças. Imagem muito forte que ainda toca minhas retinas, principalmente quando me deparei com um menino índio da minha idade, sendo que, durante uma fração de tempo, nós nos olhamos parados.

Ailton fez a cartografia dessa imagem: traçou planos, cartas e abriu um universo até então desconhecido para mim: "Eles não estavam entrando na cidade para dançar ou festejar, mas deveriam estar a caminho para o sul da Bahia, realizando um plano mágico e no percurso atravessavam instituições, cidades, alojamentos..."

E por aí Ailton Krenak foi me iniciando - posso dizer assim - num pensamento de reencantamento do concreto. Coisas leves, sem propósito, mas que vão se insinuando como um vento que vem de longe. Contou mais sobre os Maxacalis, povo que admira muito, principalmente porque mantêm sua língua original, apesar de estarem em permanente contato com o que ele chama de "pior da natureza e do humano", ou seja, a destruição dos recursos naturais de que Minas Gerais, na região do Vale do Rio Doce, que ele considera sem parâmetros com o resto do país e, também, com a violência e a exploração humana que caracterizam a região.
No meio da conversa, Ailton acolheu e soltou um pensamento sobre a não-referencialidade e a dispersão do eu: "A gente imagina que é referência de alguma coisa. Uma bobagem (risos). Basta a pessoa sumir ou morrer que o cotidiano continua intocado..."

O nosso líder Krenak é uma pessoa que exercita um pensamento que espreita o momento, valoriza o encontro e dispersa esforços de auto-importância, sem deixar de estar atento ao entorno. Nos despedimos com o desejo de um futuro encontro.

Valeu, Ailton.


Referências:
Blog do Cacique Ailton Krenak
Rede Povos da Floresta
Entrevista: Receber sonhos. Versão eletrônica de
Teoria e Debate da Fundação Perseu Abramo.
Julho-Agosto de 1989.
NOVAES, Adauto org. A outra margem do ocidente. Cia das Letras.

18.3.08

Composições do deserto - ou pausa para um sonho

O sonho foi assim: um grupo de pessoas encontra-se num deserto em meio a tempestades de areia. Deparam-se com alguns abrigos, cada um deles contendo estranhos instrumentos musicais, formados por pequenas tábuas muito finas, compridas e paralelas, que recebiam os ventos e, através do seu sopro compunham música. Instrumentos pobres, pessoas estranhas, dispostas a serem soterradas pelas areias carregadas pelos ventos do deserto à noite. Uma atriz, escavando a areia e encontrando corpos e instrumentos pergunta se vale a pena morrer por isso.

Um dos instrumentos tocado pelo vento gera uma cadeia mutante de três expressões: birds – cor preta – cor azul. Os compositores do deserto estão agora reunidos: entre eles, o músico e irreverente poeta do rock Frank Zappa que pergunta pelo significado da palavra prometerium. É só o tempo de clicar e abrir o programa do dicionário eletrônico, mas Zappa já havia resolvido por si mesmo e continuava a compor. Talvez, não seria ali, no dicionário, que o sentido da expressão pudesse ser encontrado.

Será mesmo esta palavra – prometerium? Quando eu a procuro, vasculhando as réstias de luz da manhã, encontro a palavra folículo. Esta teria a chave para encontrar aquela. A que intervalo de significado se liga esta palavra, encontrada no estado de vigília. Como voltar a sonhar? A dica será folículo? No dicionário, descubro que “prometer” vem do latim, promettere, “atirar longe”. Por que a designação em rium?

Aquelas pessoas andam. E encontram uma mulher negra, de vestido branco, na porta de uma casa pequena, de madeira cinzenta já desgastada pela chuva, e quase cantando pronunciam a palavra florange, enquanto ela levanta suavemente os calcanhares.

15.3.08

Anotações sobre recusa, resistências e culturas afirmativas

1. Quando penso nas estratégias de recusa, tomo por caminho a Poesia da Recusa, de Augusto de Campos. O poeta e performer Ricardo Aleixo foi quem deu a dica da leitura. Logo na abertura do livro, Augusto lembra Valéry, dizendo que “o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas”. A recusa opera em linhas estéticas e éticas. Augusto de Campos lembra que, em poesia, as duas estão entrelaçadas.

Do músico John Cage ao criador teatral e filmaker Carmelo Bene: trilhas de recusa.

2. As micropolíticas tiveram expressão e força em Foucault. Ele distingue, por exemplo, entre os vários regimes de técnicas, dois tipos que são as técnicas de poder e as técnicas de si. Assim, temos:

“as técnicas de poder, que determinam a conduta dos indivíduos, submetendo-os a certos fins ou à dominação, objetivando o sujeito; as técnicas de si, que permitem aos indivíduos efetuarem, sozinhos ou com a ajuda de outros, um certo número de operações sobre seus corpos e suas almas, seus pensamentos, suas condutas, seus modos deser; de transformarem-se a fim de atender um certo estado de felicidade, de pureza, de sabedoria, de perfeição ou de imortalidade.”


3. Foucault coloca também uma nova forma de luta política: não somente aquelas que se estabelecem no âmbito das classes, dos grupos em vias do poder, mas contra as formas de assujeitamento. Por fim, ele antevia uma região em que as técnicas de poder misturam-se às técnicas de si.

Foucault explicita, num texto que discute o sujeito e o poder, as lutas micropolíticas: a) são lutas transversais: não se confinam a países, governos específicos etc. b) não são lutas que visam os efeitos do poder, mas antes criticam o poder não controlado sobre os indivíduos, sobre os corpos etc;c) são lutas imediatas: não questionam a instância distante de poder, mas a que está envolvida diretamente;d) são lutas que questionam o status do indivíduo: o que os restringe quanto às suas escolhas, o que define para si uma identidade, o que os separa dos outros indivíduos, e todas as formas de assujeitamento;e) giram em torno da questão: “quem somos nós?”

4. Porque a política antecede o ser, diz Deleuze. Já estamos, sempre, numa situação política. Porém, a macropolítica não é a detentora do plano de exercício politico. Não cobre os territórios, mas realiza capturas - ou melhor, apropria-se das forças da vida. E não são a fonte de inspiração micropolítica. Porém, não vamos pensar que as políticas que funcionam num plano de representação são más. Estão aí, no plano da vida, exercendo poder. A questão do fortalecimento da participação na esfera macropolítica pode ser uma contribuição micropolítica? Penso que isso é possível, mas não reduz ou delimita a ação dos movimentos micropolíticos.

5. Por outras linhas, proliferam as culturas afirmativas. Não são se opõem às recusas. Culturas afirmativas, aqui, estão no lugar de culturas de resistência. As micro-políticas procuram sair da lamúria e, no mínimo, diriam com o sambista Ismael Silva: tristezas não pagam dividas. Não estamos falando de identidades: A=A que não B. Estamos falando da substituição, nas culturas afirmativas, do “é” pelo “e”. A série projeta-se a caminho, não pára num retrato. As culturas afirmativas não coincidem consigo mesmas, mas com suas transições (Brian Massumi). As micropolíticas tem a ver com o incremento da potência de agir (Spinosa).

6. Quanto às culturas afirmativas, tomo de Antônio Negri uma bela definição, a partir de Spinosa:

"Gostaria de dizer enfim que a redescoberta de Spinoza que devemos a Deleuze e a Matheron nos permite viver “este” mundo, isto é precisamente o mundo do “fim das ideologias” e do “fim da história”, como um mundo a reconstruir. Ela nos mostra que a consistência ontológica dos indivíduos e da multidão permite olhar para frente cada vez que a vida singular, como ato de resistência e de criação, emerge. E se os filósofos não gostam da palavra “amor”, e se os pós-modernos declinam dele seguindo a idéia de um desejo fenecido,nós, que relemos a Ética, nós, o partido dos spinozistas, nós ousamos sem falso pudor falar de amor como amais forte paixão, uma paixão que cria a existência comum e destrói o mundo do poder."

7. Penso, além disso, nos movimentos e militâncias estético-culturais, de como configuram respostas à questão da economia da vida. De como as novas gerações enfrentam o problema. Penso nas recusas das gerações que trilharam esse caminho. E no massacre que muitas viveram. E, ainda, das novas cooptações, das vanguardas estabilizadas etc.

O fascismo e o stalinismo foram obscuridades que o capital lançou mão em determinado momento. Um novo momento do capital no pós-guerra e a rebelião jovem toma conta das democracias do planeta. Refluxo do capital e cooptação dos melhores sonhos nas décadas seguintes. Estabilizam-se as vanguardas, ou elas insuflam mudanças no modo como o capital se faz acumular, principalmente através da arte e da cultura. Novos movimentos surgem nas lutas anti-globalização, justamente quando acreditava-se que nada novo ocorreria em termos de rebelião jovem.

8. Em outras palavras: a pressão da produtividade econômica sobre as novas gerações. Na década de 60, pela via alternativa e na abertura de possíveis que o capital utilizou como estoque de invenção para os anos de refluxo do dinheiro. Um novo movimento surgirá das filas dos jovens desempregados na Inglaterra: o punk. E o capital se desterritorializa mais e mais. Desmaterializa tudo. Inclusive a arte. Ocorre que o emprego acabou. O filósofo Gilles Deleuze deu a dica: estamos não mais nas sociedades disciplinares (Foucault), mas nas sociedades de controle (de tudo, do fluxo de informações, das atitudes que podem gerar novos processos de acumulação...). Não que aquelas não continuem atuando, mas inserem-se em algo mais complexo: O morcego e a mariposa: ela inventa a queda rodopiante e vertical, fingindo-se de morta, para fugir do predador e ele aprende a queda livre em quebradas de asa para pegar sua presa.

As lutas geracionais recolocam em pauta as questões dos valores simbólicos frente aos valores econômicos. As modalidades pré-fabricadas do desejo procuram definir nossa entrada no mundo em termos de sexualidade, saber de corpo, estética, ética. As estratégias de recusa, de resistência e das vias alternativas procuram responder a esta questão.

9. Não que seja um problema “jovem”. Aliás, alguns fazem crer que se trata disso. È um problema da vida e da renovação de suas forças. As respostas que temos encontrado nas militâncias estético-cultuais estão dizendo que habitar o planeta não é um plano pré-traçado pela junção valores e acumulação de capital. Há mundos possíveis. Recusas, resistências, afirmatividades e alternativas estão mostrando isso.

Referências:

Foucault, M. El sujeito y el poder. Traducción de Santiago Carassale y Angélica Vitale.

__________. As técnicas de si. In: Université du Vermont, outubro, 1982; trad. F. Durant-Bogaert).Hutton (P.H.), Gutman (H.) e Martin (L.H.), ed. Technologies of the Self. A Seminar with Michel Foucault. Anherst: The University of Massachusetts Press, 1988, pp. 16-49. Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV, pp. 783-813, por Wanderson Flor do Nascimento e Karla Neves. Disponível no site do Espaço Michel Foucault.

Negri, Antonio. Uma filosofia da afirmação. In Spinosa e a Filosofia: Leitores de Spinosa.

Campos, Augusto. Poesia da Recusa. Perspectiva: 2006, São Paulo.

28.2.08

Ecum 2008 - Cena emergente: diálogos com o futuro



O Encontro Mundial de Artes Cênicas está na sua 6a edição, comemorando 10 anos. E acontecerá em Belo Horizonte, São Paulo e interior de Minas Gerais (São João Del Rei, Ipatinga e Contagem).

Veja a programação em Ecum 2008.

Acesse o blog do Ecum (imprensa).

21.2.08

Revolução sem rosto




Sob o nome fictício de um escritor/jornalista, Lutter Blisset, um grupo de ativistas criou uma tática de combate e denúncia das manipulações sensacionalistas da grande mídia. Vejam o site do Projeto Lutter Blisset (em inglês, italiano e espanhol). O grupo de artistas surgiu em 1994 e, depois, fundou outro grupo, denominado Wou Ming, cujos projetos são a criação de ficções de autoria coletiva:

17.2.08

Este meu corpo

"Este meu corpo, que alguém me deu,
Que fazer dele, tão um, tão meu?

Respirar, este quieto prazer
-Digam-me - a quem devo agradecer?"


Osip Mandelstam - trecho do poema Este meu corpo.
Campos, Augusto de. Poesia da recusa/ Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 2006.

6.2.08

Como ficam as micro-políticas: resistir é capitular?



Slavoj Zizek diz que sim. Num artigo da revista impressa Piauí, número 16,Zizek discute a questão: "o capitalismo deve ser combatido por meio de reinvidicações impossíveis ou se deve almejar a conquista do poder do Estado?" O título já contém a resposta: Resistir é capitular.

Zizek, depois de considerar que o capitalismo triunfa no planeta e conquista mentes e corações, alinha as alternativas de esquerda:



- aceitar a hegemonia e lutar por reformas (a terceira via);


- preconizar uma resistência a partir dos interstícios dessa hegemonia;


- aceitar que toda modalidade de resistência é fútil e aguarda uma revelação final;


- defender o Welfare State, já que a hegemonia é fato, refugiando-se nos "estudos culturais";


- transferir o ataque para as lutas cotidianas, de modo que os fundamentos do Estado e do Capital desmoronem com o tempo;


- chafurdar no espírito pós-moderno;


- acreditar que a contradição capitalista produz, paradoxalmente, as condições para uma "democracia absoluta" (Michael Hardt e Antonio Negri estariam nessa posição).


Zizek vai em frente e analisa as opções de tomada do Estado, como o caso de Chaves: treinamento armado de favelados etc. Por fim, sem querer reproduzir a riqueza de seus argumentos (vale a pena ler o artigo), Zizek indica que, a opção das linhas de resistência que focam o cotidiano e procuram reiventá-lo, acaba por deixar o Estado como está: a serviço do capital.

Como ficamos?

1. Penso que são dois planos: um micro-político e outro macro-político. No entanto, optar pelas linhas de resistência, ou melhor, de afirmatividade das micro-políticas não significa a negação ou a alienação sobre as vias da representação, da macro-política, da mudança do Estado. Não discuto, aqui, a saída autoritária de esquerda, que esconjuro a partir de uma frase de Godard no seu genial filme Nossa Música: matar um homem para defender uma idéia não é defender uma idéia, é matar um homem.

2. Falemos da política representativa. E acredito que é disso que Zizek trata: a via democrática de tomada do Estado por um projeto de esquerda. Porém, as micro-políticas não excluem essa alternativa, apenas executam seu plano próprio. No entanto, coloca-se a questão: como as micro-políticas poderiam contribuir, por exemplo, para a reforma do Estado? Cito, por exemplo, a gestão Gilberto Gil no Ministério da Cultura que, dentro de um plano macro introduz traços micro-políticos, como é o caso da diversidade cultural.

3. O que faz o diferencial, no atual estágio do capitalismo, é a mudança operada pelo papel do intelectual. Maurizio Lazzarato e Antonio Negri, no livro Tra
balho Imaterial, consideram justamente que o intelectual encontra-se metido no próprio ciclo de produção. Coisas de um capitalismo que se tornou cognitivo, cultural, estético etc.

4. Capitalismo rizomático, coneccionista, como analisa Peter Pál Pelbart, em Vida Capital, a partir dos teóricos Luc Boltanski e Ève Chiapello. O capitalismo teria apropriado-se da crítica do Maio de 68, nas vertentes estética e social:
"a intimidade do trabalhador, sua vitalidade, sua iniciativa, sua inventividade, sua capacidade de conexão foi sendo cobrada como elemento indispensável na nova configuração produtiva".

Apropriação esta que Lazzarato e Negri situam a partir do ciclo produtivo do trabalho imaterial.

5. Como bem disse um amigo, o midiativista Braúlio Brito, do Estilingue - coletivos autônomos, numa conversa no restaurante macrô Fonte de Minas, em BH: "nunca, no capitalismo, as condições para a criação de relações anticapitalistas foram tão propícias!".

É de arrepiar marxistas. Mas Lazzarato e Negri fazem uma análise marxista...

6. O debate interessa aos militantes estético-culturais. Justamente pelo plano que interfere nas políticas macro e de representação de modo imanente: a produção da subjetividade no mundo de hoje.Não há como não considerar, portanto, a nova realidade produtiva e o papéis que cabem à arte e à cultura.

7. Por esses caminhos, penso que, ao se colocar a relação entre cultura e Estado, podemos tomar duas atitudes: uma corporativa, a outra conectiva.

A atitude corporativa visa acionar no Estado conquistas para garantir espaços de mobilização, direitos etc. Em arte e cultura, isso degenerou em muito para uma apropriação particularista do Estado, visto que o processo de abertura deveria ser imediatamente fechado para que a conquista territorial não fosse perdida.

Contrário disso, a atitude coneccionista, que busca justamente criar conexões não previsíveis, estabelecer fluxos criativos, investindo em processos desterritorializantes, numa visão co-participativa e afirmativa: o que Lazzarato e Negri chamam de liberação das máquinas subjetivantes. Ou seja: em pauta a valorização das singularidades,a inventividade, a cooperação social e solidariedade.

Num modo corporativo, a meta é apropriar-se do Estado para que as massas possam assumir o controle do aparelho, antes privatista etc. Ocorre que não mais nos encontramos somente com o agenciamento de subjetividades do tipo massa (do ciclo de produção fordista e taylorista), mas com multidão (Neguir e Hardt) e matilhas (Deleuze).

Dá para entender que as coisas estão mudando?

A atitude coneccionista trabalha com
a proliferação de outros sentidos: a construção do espaço público mediante a liberação dos fluxos, das máquinas de subjetivação, isto é, para dizer com Lazzarato e Negri, dos processos de comunicação social. Uma política inclusiva e aberta. Então, o projeto de ocupação do Estado, numa via republicana (afinal, pessoalmente não acredito na tomada do poder por um grupo iluminado que, uma vez lá, declara que toda diferença é inimiga da revolução...), passa por vias solidárias e ao mesmo tempo desterritorializante.

8. Devemos lembrar que não podemos acalentar ilusões com o mundo gerado pelo capitalismo em seu atual estágio (mais destruição, desfazimento dos laços afetivos, desemprego, guerra por toda parte etc.). Porém, a tarefa da crítica não mais se faz pelo modo ideológico (que por si próprio, utilizava as correias de transmissão do capitalismo fordista, invocando sempre uma visão que supriria o mundo de mais racionalidade), mas pela ramificação conectiva, pela afirmatividade. Sua questão, enfim, envolve perceber que o capitalismo, não mais se organizando a partir de um centro, coloca-nos diante de uma mutabilidade ainda maior: a que ponto cada liberação não conecta com o aniquilamento do desejo. Mais uma vez, abandonar posições faz parte da nova arte da guerra.

Tudo isso são apenas anotações às margens dessas leituras. Perguntas que se abrem. Recomendo, portanto, a leitura dos próprios autores:

- Vida Capital de , da editora Iluminuras e Trabalho Imaterial, de Maurizzio Lazzarato e Antonio Negri,da DPA Editora, e o texto de Zizek, Resistir é capitular, na Revista Piauí, número 16, janeiro de 2008. Façam seus mapas.

Referências:
Imagem de uma criação de Eva Hesse, Accession II (1969, Detroit Institute of Arts)

24.1.08

Verão Arte Contemporânea, leituras e férias



Saio de férias. Volto dia 02 de fevereio. No meio do carnaval. Perco a programação cultural da cidade que traz muita coisa interessante no período.

Levo algumas leituras. Primeiramente, termino Lógica da Sensação, de Deleuze. Depois, inicio dois outros livros: Trabalho Imaterial, de Antônio Negri e Maurizio Lazzarato e Vida Capital, de Peter Pal Pelbart. O primeiro versa sobre os novos tempos do capitalismo e as formas de subjetividade que nele se engendram. O segundo, que não está muito distante do foco do primeiro, aborda a biopolítica e as frestas, brechas e formas de resistência, num conjunto de diversos ensaios.

E para contrabalançar tanto trabalho imaterial, Poesia da Recusa, de Augusto de Campos, por indicação de Ricardo Aleixo.

No blog Cultura do brincar e suas linhas de errância, falo das outras leituras.

Nos entre-tempos, faço rascunhos do roteiro para vídeo que farei com Alex, Paulo Henrique, Naiara Jardim, Jéssica Azevedo, Davi Pantuzza e Sara Vaz. A fotografia ficará a cargo de Byron O'Nell. E será montado por Ricardo Júnior (Material Bruto e Convite para Jantar com o Camarada Stálin).

Enquanto isso, Belo Horizonte fervilha com o II Verão Arte Contemporânea. O evento, inaugurado no verão de 2007, é um festival de arte instigante, acontecendo em diversos espaços da cidade, nos meses de janeiro e fevereiro. Veja a Programação Completa.

Boas curtições para todos.

23.1.08

Teatro Pós-dramático: saiu a tradução brasileira do livro de Lehmann




A Cosac & Naif acaba de publicar a tradução brasileira do livro de Hans-Thies Lehmann (feita por Pedro Süssekind), originalmente publicado na Alemanha em 1999 (Postdramatisches Theater. Frankfurt: Verlag der Autoren, 1999).

Segundo o diretor, crítico e dramaturgo, Luis Arthur Nunes, numa resenha do site da Editora, a obra "vem preencher uma grande lacuna, na medida em que se propõe a descrever e pensar teoricamente as práticas radicais da encenação teatral das últimas décadas - de 1970 em diante. Até então, alguma coisa tinha-se escrito sobre a dramaturgia experimental contemporânea, mas pouquíssimo sobre as questões referentes à cena, suas condições de produção e formalização, bem como as implicações estéticas, políticas e filosóficas."

Criadores, performers, pesquisadores e estudiosos que buscam informações sobre o teatro pós-dramático têm em mãos, portanto, a oportunidade de acesso direto às análises de Lehmann.

O teatro pós-dramático não deveria ser entendido, justamente, como análise de um fenômeno plural, múltiplo, heterogêneo e não como uma palavra de ordem ou mera categorização. Além disso, não quer dizer que seja uma modalidade de criação artística melhor que as outras ou que a superam.

O que o teatro pós-dramático opera, em primeira mão, é a quebra do vínculo interno entre teatro e drama. Vínculo este que foi tomado como sendo de natureza indissolúvel: como conceber um teatro sem drama?

Convido, então, à leitura da obra.

Referências:
LEHMANN, Hans-Thies. Teatro ós-dramático.Tradução: Pedro Süssekind. Apresentação: Sérgio de Carvalho. São Paulo: Editora Cosac & Naif, 2007.
Outras postagens relacionadas ao assunto:
De artistas cortesãos e artistas supliciados
Medeiazonamorta
Em busca do corpo anômalo
Renato Cohen e a criação cênica em processo
Seminário do Projeto Laboratório: Textualidades Cênicas Contemporâneas
Do teatro pós-dramático e das dramaturgias híbridas
Zikzira Teatro Físico: Eu vos liberto

Do blog Cultura do Brincar e suas linhas de errância:
Teatro pós-dramático e educação
Teatro pós-dramático e educação II

7.1.08

Fábrica de sentidos: blog de Fabrícia Martins

Do blog de Fabrícia Martins, um texto sobre um Festival de Artes de Paris, ocorrido em Novembro de 2007, em que ela relata três peças muito interessantes:

"Greve no sistema de transporte público, movimentos sociais, manifestações nas ruas e nas universidades. A temperatura pode chegar a –1°c. Em meio a tudo isso, vários dispositivos cênicos vêm se juntar às reflexões sobre modos de ver e de fazer «Arte» – em pauta por aqui nesse momento. Estamos falando do Festival «Les Inaccoutumés – Objet Chorégraphique Contemporain» na Ménagerie de Verre (www.menagerie-de-verre.org), que conta com 12 espetáculos e 25 noites dedicadas à dança e ao «Festival d’Automne» (www.festival-automne.com) que se espalha por teatros, salas de concerto, bares e cinemas. Esse último, na sua 36° edição, teve seu início no dia 13 de setembro e se estende até ao dia 22 de dezembro abrangendo artes visuais, música, teatro, dança, performances, poesia e cinema."
Leia o texto completo

Conheci Fabrícia em Belo Horizonte, quando partilhamos momentos no Curso de Artes Cênicas da Escola de Belas Artes/UFMG. Eu, um cara que buscava outra coisa que não mais o teatro dramático, ela uma bailarina com uma trajetória de dedicações, sutilezas e texturas, também em busca de outra dança.

Fabrícia está na França dedicando-se à dança experimental. O seu blog, sobre o qual ela mesma me disse, é tanto um meio de expor e pensar pesquisas em dança quanto um modo de aproximar-se das pessoas. Afinal, de arte e de bons encontros - é disso que necessitamos para atravessar um tempo deste maravilhoso planeta.

5.1.08

Teatro e intermídia - Revista Polêmica Imagem

Do Caderno Cultural da Revista Eletrônica Polêmica Imagem/n. 22, um texto que escrevi sobre Teatro e intermídia:

"O que perpassa tais experimentos e criações é o fato de as novas tecnologias potencializarem transformações no modo como percebemos o mundo. A percepção, submetida ao plano técnico que a sociabilidade domesticou, libera-se e abre paisagens novas e surpreendentes. Como exemplo, cito o videomaker e pensador visual e sonoro, Bill Viola (2003), que fala da possibilidade da 'transposição da barreira suprema que separa o território do corpo físico do território da mente luminosa'."


O Caderno Cultural tem editoria da artista plástica Kenny Neoob e tem apresentado, a cada número, uma série de artigos que abordam as estéticas híbrida e o estado da arte em estudos sobre imagem, performance e arte contemporânea. Nesse número dedicado ao tema Multimídia, Polêmica Imagem traz os seguintes artigos:


Balanço da Rede
Texto de GABRIELA GUSMÃO

Intersensorialidade e exercícios atencionais
Texto de BRENO CARNEIRO DE MENEZES

Teatro & intermídia: anotações sobre conceitos, forças e potências
Texto de LUIZ CARLOS GARROCHO


Corpo - Mídia
Texto de DENISE ZENICOLA

Parafernálias: composição urbana e ueb arte iterativa
Texto de FERNANDO AQUINO e MARIA BEATRIZ DE MEDEIROS

Você é fluxus?
Texto de REGINA MELLO

4.1.08

Arte Contemporânea em Debate - uma análise de Daniela Labra

"É admirável como as discussões públicas sobre o tema Arte Contemporânea se tornam verdadeiros Fla x Flus muito facilmente. De um lado, críticos e artistas inconformados com a história do século XX que transformou a arte numa espécie de engodo para satisfazer um mercado consumista, fabricante de estrelas fugazes das artes plásticas, muitas vezes sem preparo técnico adequado.

Do outro lado da discussão, outros artistas, críticos, curadores e todos os que se interessam positivamente pelo tema, não o compreendendo como uma aberração histórica, mas como um caminho estranho e instigante que a arte tomou ao se desligar de sua premissa número um que era representar mimeticamente a natureza.

Em comum, ambos os lados parecem querer defender seus pontos de vista como se fosse uma verdade. O curioso é perceber como se dão tais críticas e suas réplicas, sempre muito reativas e pouco cordiais, principalmente daqueles que são ‘contra’ a arte contemporânea."


Daniela Labra, curadora independente e crítica de arte, com um foco especial na performance,faz uma análise do debate que as grandes mídias impressas abriram sobre o sentido da Arte Contemporânea, com um texto esclarecedor, intitulado Arte e Fla x Flus, publicado na íntegra no Canal Contemporâneo.

Vale a pena ler o texto de Daniela. Há, também, links para os artigos publicados nos jornais.

Como coloca Daniela, virou uma disputa tipo Fla X Flu - uma paixão de ataques e revides.

Toda essa peleja de ataques contra a Arte Contemporânea é uma modalidade de conquistar territórios, de não deixar que eles sejam tomados... Algo está saindo do controle... E isso parece assustar alguns cujas paixões tristes se comprazem em cercar territórios. O jogo começa a funcionar quando conseguem produzir um debate: as pessoas se organizam, então, para responderem nos termos dados de antemão.

Vamos lá, artista-pensador-fruidor desse admirável mundo novo: não deixe que as lamúrias pautem sua ação, comece logo a criar e a habitar as suas próprias paisagens, pois tudo é porvir...