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6.2.08

Como ficam as micro-políticas: resistir é capitular?



Slavoj Zizek diz que sim. Num artigo da revista impressa Piauí, número 16,Zizek discute a questão: "o capitalismo deve ser combatido por meio de reinvidicações impossíveis ou se deve almejar a conquista do poder do Estado?" O título já contém a resposta: Resistir é capitular.

Zizek, depois de considerar que o capitalismo triunfa no planeta e conquista mentes e corações, alinha as alternativas de esquerda:



- aceitar a hegemonia e lutar por reformas (a terceira via);


- preconizar uma resistência a partir dos interstícios dessa hegemonia;


- aceitar que toda modalidade de resistência é fútil e aguarda uma revelação final;


- defender o Welfare State, já que a hegemonia é fato, refugiando-se nos "estudos culturais";


- transferir o ataque para as lutas cotidianas, de modo que os fundamentos do Estado e do Capital desmoronem com o tempo;


- chafurdar no espírito pós-moderno;


- acreditar que a contradição capitalista produz, paradoxalmente, as condições para uma "democracia absoluta" (Michael Hardt e Antonio Negri estariam nessa posição).


Zizek vai em frente e analisa as opções de tomada do Estado, como o caso de Chaves: treinamento armado de favelados etc. Por fim, sem querer reproduzir a riqueza de seus argumentos (vale a pena ler o artigo), Zizek indica que, a opção das linhas de resistência que focam o cotidiano e procuram reiventá-lo, acaba por deixar o Estado como está: a serviço do capital.

Como ficamos?

1. Penso que são dois planos: um micro-político e outro macro-político. No entanto, optar pelas linhas de resistência, ou melhor, de afirmatividade das micro-políticas não significa a negação ou a alienação sobre as vias da representação, da macro-política, da mudança do Estado. Não discuto, aqui, a saída autoritária de esquerda, que esconjuro a partir de uma frase de Godard no seu genial filme Nossa Música: matar um homem para defender uma idéia não é defender uma idéia, é matar um homem.

2. Falemos da política representativa. E acredito que é disso que Zizek trata: a via democrática de tomada do Estado por um projeto de esquerda. Porém, as micro-políticas não excluem essa alternativa, apenas executam seu plano próprio. No entanto, coloca-se a questão: como as micro-políticas poderiam contribuir, por exemplo, para a reforma do Estado? Cito, por exemplo, a gestão Gilberto Gil no Ministério da Cultura que, dentro de um plano macro introduz traços micro-políticos, como é o caso da diversidade cultural.

3. O que faz o diferencial, no atual estágio do capitalismo, é a mudança operada pelo papel do intelectual. Maurizio Lazzarato e Antonio Negri, no livro Tra
balho Imaterial, consideram justamente que o intelectual encontra-se metido no próprio ciclo de produção. Coisas de um capitalismo que se tornou cognitivo, cultural, estético etc.

4. Capitalismo rizomático, coneccionista, como analisa Peter Pál Pelbart, em Vida Capital, a partir dos teóricos Luc Boltanski e Ève Chiapello. O capitalismo teria apropriado-se da crítica do Maio de 68, nas vertentes estética e social:
"a intimidade do trabalhador, sua vitalidade, sua iniciativa, sua inventividade, sua capacidade de conexão foi sendo cobrada como elemento indispensável na nova configuração produtiva".

Apropriação esta que Lazzarato e Negri situam a partir do ciclo produtivo do trabalho imaterial.

5. Como bem disse um amigo, o midiativista Braúlio Brito, do Estilingue - coletivos autônomos, numa conversa no restaurante macrô Fonte de Minas, em BH: "nunca, no capitalismo, as condições para a criação de relações anticapitalistas foram tão propícias!".

É de arrepiar marxistas. Mas Lazzarato e Negri fazem uma análise marxista...

6. O debate interessa aos militantes estético-culturais. Justamente pelo plano que interfere nas políticas macro e de representação de modo imanente: a produção da subjetividade no mundo de hoje.Não há como não considerar, portanto, a nova realidade produtiva e o papéis que cabem à arte e à cultura.

7. Por esses caminhos, penso que, ao se colocar a relação entre cultura e Estado, podemos tomar duas atitudes: uma corporativa, a outra conectiva.

A atitude corporativa visa acionar no Estado conquistas para garantir espaços de mobilização, direitos etc. Em arte e cultura, isso degenerou em muito para uma apropriação particularista do Estado, visto que o processo de abertura deveria ser imediatamente fechado para que a conquista territorial não fosse perdida.

Contrário disso, a atitude coneccionista, que busca justamente criar conexões não previsíveis, estabelecer fluxos criativos, investindo em processos desterritorializantes, numa visão co-participativa e afirmativa: o que Lazzarato e Negri chamam de liberação das máquinas subjetivantes. Ou seja: em pauta a valorização das singularidades,a inventividade, a cooperação social e solidariedade.

Num modo corporativo, a meta é apropriar-se do Estado para que as massas possam assumir o controle do aparelho, antes privatista etc. Ocorre que não mais nos encontramos somente com o agenciamento de subjetividades do tipo massa (do ciclo de produção fordista e taylorista), mas com multidão (Neguir e Hardt) e matilhas (Deleuze).

Dá para entender que as coisas estão mudando?

A atitude coneccionista trabalha com
a proliferação de outros sentidos: a construção do espaço público mediante a liberação dos fluxos, das máquinas de subjetivação, isto é, para dizer com Lazzarato e Negri, dos processos de comunicação social. Uma política inclusiva e aberta. Então, o projeto de ocupação do Estado, numa via republicana (afinal, pessoalmente não acredito na tomada do poder por um grupo iluminado que, uma vez lá, declara que toda diferença é inimiga da revolução...), passa por vias solidárias e ao mesmo tempo desterritorializante.

8. Devemos lembrar que não podemos acalentar ilusões com o mundo gerado pelo capitalismo em seu atual estágio (mais destruição, desfazimento dos laços afetivos, desemprego, guerra por toda parte etc.). Porém, a tarefa da crítica não mais se faz pelo modo ideológico (que por si próprio, utilizava as correias de transmissão do capitalismo fordista, invocando sempre uma visão que supriria o mundo de mais racionalidade), mas pela ramificação conectiva, pela afirmatividade. Sua questão, enfim, envolve perceber que o capitalismo, não mais se organizando a partir de um centro, coloca-nos diante de uma mutabilidade ainda maior: a que ponto cada liberação não conecta com o aniquilamento do desejo. Mais uma vez, abandonar posições faz parte da nova arte da guerra.

Tudo isso são apenas anotações às margens dessas leituras. Perguntas que se abrem. Recomendo, portanto, a leitura dos próprios autores:

- Vida Capital de , da editora Iluminuras e Trabalho Imaterial, de Maurizzio Lazzarato e Antonio Negri,da DPA Editora, e o texto de Zizek, Resistir é capitular, na Revista Piauí, número 16, janeiro de 2008. Façam seus mapas.

Referências:
Imagem de uma criação de Eva Hesse, Accession II (1969, Detroit Institute of Arts)

7.1.07

Contrário disso: a capacidade de um corpo ser afectado

No campo da criação corpórea aparece sempre a questão do corpo como um fenômeno de comunicação. Entranto, adentrei por um desvio que apresenta o corpo em suas forças capazes de afecção, a partir do pensamento de Gilles Deleuze, principalmente. Nessa busca, deparei-me com um texto de Peter Pál Pelbart, do qual publico um trecho que é, antes de tudo, muito inspirador:


"... seria preciso retomar o corpo naquilo que lhe é mais próprio, sua dor no encontro com a exterioridade, sua condição de corpo afetado pelas forças do mundo e capaz de ser afetado por elas: sua afectibilidade. Como o observa Barbara Stiegler, para Nietzsche todo sujeito vivo é primeiramente um sujeito afetado, um corpo que sofre de suas afecções, de seus encontros, da alteridade que o atinge, da multidão de estímulos e excitações que lhe cabe selecionar, evitar, escolher, acolher7.

Nessa linha, também Deleuze insiste: um corpo não cessa de ser submetido aos encontros, com a luz, o oxigênio, os alimentos, os sons e as palavras cortantes -um corpo é primeiramente encontro com outros corpos, poder de ser afetado. Mas não por tudo e nem de qualquer maneira, como quem deglute e vomita tudo, com seu estômago fenomenal, na pura indiferença daquele a quem nada abala...
Como então preservar a capacidade de ser afetado, senão através de uma permeabilidade, uma passividade, até mesmo uma fraqueza? Mas como ter a força de estar à altura de sua fraqueza, ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força, pergunta Nietzsche e, no seu rastro, Stiegler, Lapoujade? Gombrowicz referia-se a um inacabamento próprio à vida, ali onde ela se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não “pegou” inteiramente8, e a atração irresistível que exerce esse estado de Imaturidade, onde está preservada a liberdade de “seres ainda por nascer”... Porém, será possível dar espaço a tais "seres ainda por nascer" num corpo excessivamente musculoso, em meio a uma atlética auto-suficiência, demasiadamente excitada, plugada, obscena, perfectível? Talvez por isso tantos personagens literários, de Bartleby ao artista da fome, precisem de sua imobilidade, esvaziamento, palidez, no limite do corpo morto. Para dar passagem a outras forças que um corpo excessivamente blindado não permitiria. Mas será preciso produzir um corpo morto para que outras forças atravessem o corpo?
José Gil observou o processo através do qual, na dança contemporânea, o corpo se assume como um feixe de forças e desinveste os seus órgãos, desembaraçando-se dos “modelos sensório-motores interiorizados”, como o diz Cunningham. Um corpo “que pode ser desertado, esvaziado, roubado da sua alma”, para então poder “ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida”. É aí, diz Gil, que esse corpo, que já é um corpo-sem-órgãos, constitui ao seu redor um domínio intensivo, uma nuvem virtual, uma espécie de atmosfera afetiva, com sua densidade, textura, viscosidade próprias, como se o corpo exalasse e liberasse forças inconscientes que circulam à flor da pele, projetando em torno de si uma espécie de “sombra branca”9. Não posso me furtar à tentação, nem que seja de apenas mencionar, a experiência da Cia. Teatral Ueinzz, que coordeno em São Paulo, na qual reencontramos entre alguns dos atores ditos psicóticos, posturas “extraviadas”, inumanas, disformes, rodeados de sua “sombra branca”, ou imersos numa “zona de opacidade ofensiva”10.
O corpo aparece aí como sinônimo de uma certa impotência, mas é dessa impotência que ele extrai uma potência superior, nem que seja às custas do corpo empírico.
Pois é às custas do corpo empírico que um corpo virtual pode vir à tona. Desde o jejuador até o homem-inseto, os personagens de Kafka reivindicam um corpo “afetivo, intensivo, anarquista, que só comporta pólos, zonas, limiares e gradientes”. Como dizem Deleuze-Guattari, num tal corpo se desfazem e se embaralham as hierarquias, “preservando-se apenas as intensidades que compõem zonas incertas e as percorrem a toda velocidade, onde enfrentam poderes, sobre esse corpo anarquista devolvido a si mesmo”11, ainda que ele seja o de um coleóptero. “Criar para si um corpo sem órgãos, encontrar seu corpo sem órgãos é a maneira de escapar ao juízo” do pai, do patrão, de Deus, é uma maneira de fugir a todo um sistema do juízo, da punição, da culpa, da dívida.
Ao invés da dívida infinita em relação à instância transcendente, o embate dos corpos, num sistema da crueldade imanente. Há aí, insistem os autores, nesse corpo desfeito e intensivo, tal como aparece em Kafka, uma vitalidade não-orgânica, inumana, e um combate: “Todos os gestos são defesas ou mesmo ataques, esquivas, paradas, antecipações de um golpe que nem sempre se vê chegar, ou de um inimigo que nem sempre se consegue identificar: donde a importância das posturas do corpo”12.

Mas o objetivo do combate, diferentemente da guerra, não consiste em destruir o Outro, mas em escapar-lhe ou apossar-se de sua força. Em suma, o combate como uma “poderosa vitalidade não-orgânica, que completa a força com a força, e enriquece aquilo de que se apossa”.
Mas o que é essa vitalidade não-orgânica? Em “Imanência: Uma Vida”, último texto escrito por Deleuze, comparece um exemplo -o de Dickens. O canalha Riderhood está prestes a morrer num quase afogamento, e libera nesse ponto uma “centelha de vida dentro dele” que parece poder ser separada do canalha que ele é, centelha com a qual todos à sua volta se compadecem, por mais que o odeiem -eis aí uma vida, puro acontecimento, em suspensão, impessoal, singular, neutro, para além do bem e do mal, uma “espécie de beatitude”, diz Deleuze"13.

Peter Pál Pelbart -

Referências:
(texto completo em http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2792,1.shl)


7 - Barbara Stiegler, "Nietzsche et la Biologie", Paris, PUF, 2001, p. 38.
8 - Witold Gombrowicz, "Contre les Poètes", Paris, Ed. Complexe, 1988, p. 129.
9 - José Gil, “Movimento Total”, Lisboa, Relógio d´Água, 2001, p. 153.
10 - http://ueinzz.sites.uol.com.br/home.htm
11 - G. Deleuze, “Crítica e Clínica”, São Paulo, Ed. 34, p. 149.
12 - G. Deleuze, “Crítica e Clínica”, op. cit., p. 149-150.
13 - G. Deleuze, "L´Immanence, Une Vie", in « Deux Régimes de Fous », Paris, Minuit, 2003.