26.2.07

Medeiazonamorta


Fui convidado para participar de uma roda de conversa com público e artistas do espetáculo Medeiazonamorta, uma produção do Grupo Teatro Invertido, que faz parte do Circuito Off. O espetáculo ocupa um laboratório desativado da Escola de Engenharia da UFMG.

Conversamos sobre alguns planos, relativos à configuração do pensamento teatral que o grupo coloca em cena. O coletivo de artistas intitula as apresentações de Temporada Laboratório e, segundo Leonardo Lessa, ator e um dos fundadores do Grupo, o espetáculo é uma obra em processo. Em cada espaço, o espetáculo se desfaz e se refaz. Batemos uma bola, com alguns toques e lances do tipo:

1. A definição de uma obra em processo. O que difere de uma concepção de arte como obra acabada, mesmo que aberta (ecos de Eco...) etc. No procedimento da obra em processo, não há a manutenção de um espetáculo que deve corresponder sempre ao seu projeto inicial. O não-acabamento (que não quer dizer mal acabamento) é o que define a obra.

2. O plano de composição cênico: conversamos sobre teatros épico-dramáticos e teatros pós-dramáticos. Me vem à cabeça que o Teatro Invertido, parte para um teatro pós-dramático, seguindo a análise de Lehmann. Num teatro dramático (e épico) há três fatores que não arredam o pé (ou desconfigurariam a forma clássica): a) o vínculo entre personagem e lugar; b) o texto vem da boca da personagem e está à serviço de sua construção (social e/ou psicológica), ou, ainda, funciona como descrição da ação, como no épico; d) há um vínculo interno entre a forma teatral e a forma dramática (desenvolvimento da continuidade das ações por coerência lógica e conflito). A forma épica não deixa de ser um teatro dramático. Entretanto, nada disso, pelo que vi, encontra-se em Mediazonamorta. Diferentemente de outras produções do grupo, esta aponta para outro tipo de configuração mental do teatro. O coletivo de artistas adentrou em outra zona de criação cênica. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que não há julgamentos aqui: a forma dramática não é melhor ou pior que a forma não-dramática de teatro. Apenas cumprem planos de poesia diversos.

3. O plano de caos que a encenação cria. Ele possui potências corrosivas.
4. O plano das justaposições e das conexões não causais entre as cenas. Nesse aspecto encontra-se, na minha visão do espetáculo, as suas potências criativas.
5. O plano corpóreo e a visceralidade das ações.

Falei desses planos e de suas relações com o texto falado pelos atores. E da força poética de certas imagens que a encenação proporciona.

Há mais ou menos dois anos, um curador de um festival de arte e cultura de Barcelona (Espanha) fez uma visita ao Centro de Cultura Belo Horizonte, no qual eu estava à frente com uma bela equipe de trabalho. E o que ele me disse? Que Belo Horizonte era uma cidade na qual predominavam as comédias teatrais. Contestei isso. Nada contra as comédias, mas não corresponde à realidade de criação cênica da cidade. Então, ele me desafiou: - Vamos abrir um jornal! E completou: - Onde estão os grupos e as criações de que você me fala?

Foi um aperto, confesso. O momento em foco não estava nada bom, pelo menos na mídia impressa. Assistindo Medeiazonamorta, que se propõe a um espetáculo visceral, virulento e de uma poética que passa pelos planos da materialidade cênica, vejo que Belo Horizonte não é uma conformidade com a mesmice. O mesmo posso ver nos esforços dos artistas que estão criando, ao lado do Circuito Off, o quase-festival Verão Arte Contemporânea.

Ei, se liguem. Há vida inteligente em Belo Horizonte. Há artistas correndo riscos, saindo dos lugares comuns, realizando produções independentes, experimentando.

Bibliografia:
LEHMANN, Hans-Thies. Postdramatic Theatre. New York: Routledge, 2005.
COHEN, Renato. Working in progress na cena contemporânea. São Paulo: Perspectiva, 1998.
Ficha Técnica: Medeiazonamorta: atuação de Camilo Lélis, Leonardo Lessa e Rita Maia; direção de Amaury Borges; texto de Letícia Andrade; Cenografia de Ines Linke; tilha sonora de Admar Fernandes e iluminação de Rogério Araújo e Amaury Borges. Veja mais em: www.circuitooff.com.br

3 comentários:

  1. Oi Luiz,
    Tudo bem? Você já viu a nova ferramenta do Overmundo? É o Overfeeds que permite que os blogs de cultura publiquem seus textos diretamente lá no Overmundo. Cadastre seu blog lá, pois é muito bom!
    Leia mais a respeito em:
    http://www.overmundo.com.br/blogs/alimente-o-overfeeds-com-seu-blog

    Abraços,
    Marcelo

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  2. Davi Pantuzza4/01/2007 10:59 PM

    Diz daí, Garrocho.

    Assisti ao espetáculo Medeiazonamorta semana passada e gostei muito. Não vimos o mesmo trabalho, porém podemos trocar algumas figuras.

    1. Achei impressionante como este tipo de espetáculo nos arremessa para dentro do que ocorre ali, naquele momento; nossa atenção se multiplica em diversos planos e, como você disse sobre a visceralidade das ações, saímos de lá modificados, em estado pós-cirúrgico - para dizer com Artaud.

    2. No que se refere à narrativa, tento pensar com você quando diz dos teatros épico-dramático ou pós-dramático: senti que houve um trabalho impressionante para a valorização da materialidade das cenas, de tudo que ocorre. Há, a meu ver, uma certa autonomia do corpo - porque não das matérias cênicas - em relação às palavras, ao texto. Ora eles se confluem, ora se divergem...
    Não estaríamos no plano da "imagem-percepção"(?)? Todos os espectadores vêem coisas distintas, sob perspectivas diferentes - inclusive porque várias vezes precisamos escolher o que vamos ver: ligamos os planos, os cortes, as dissonâncias, as consonâncias...
    Isso dá uma liberdade incrível para o teatro!

    Falei demais.

    Esticamos conversa depois.

    Abraço,
    Davi.

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  3. Davi,

    Penso por aí, por essas potencialidades.

    A imagem-percepção vem de Deleuze. A imagem-ação: uma percepção que gera uma ação (lógico-causal, arrisco; a imagem-percepção: uma percepção que gera uma nova percepção que gera uma nova percepção que gera...

    A imagem-ação: digito diante do monitor/som de passos atrás de mim/levanto-me e vou até a porta/volto para o monitor/novos sons de passos/meu coração dispara...

    A imagem-percepção: diante do monitor/sons de passos/deito-me de costas no chão e cantarolo uma canção de ninar/sons de passos/cantarolo/sons de passos/um vento sopra as cortinas da janela/cantarolo

    Tente você...

    Gertrud Stein tem um poema assim:

    Rose is a rose is a rose is a rose

    Um abraço

    Luiz Carlos

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