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8.3.09

Corpo e movimento (e): anotações sobre as tentativas de um encontro



Imagem: Spitfirelas -


Fiquei de escrever sobre o Encontro de Criadores e Coreógrafos do Festival NovaDança, em Pirenópolis.

Na primeira parte faço um relato breve do Encontro, trazendo para a tela algumas coisas que anotei no meu caderno. E na segunda parte apresento algumas questões que me rondaram e ainda me visitam. Não são propriamente as questões da dança, mas aquelas que um pesquisador e criador no campo das fronteiras borradas entre teatro e dança coloca para si.

I. Um exercício de encontro

O encontro se deu com várias "salas" de discussão, experimentação e estudos: composição, improvisação, processo criativo, lugar específico, percursos e deambulações, entre outras. Fizemos um levantamento, primeiramente, daquilo que cada um queria colocar em foco. Depois, filtramos e organizamos uma agenda. Algumas idéias fizeram parte de uma programação coletiva, outras surgiram de oportunidades apresentadas.

Participaram: Dudude Hermann, que foi mediadora e provocadora dos encontros e confluências: Wederson Godoy da Cia Hybridus, Paola Rettore, Thembi Rosa, Margô Assis e este que vos escreve (Minas Gerais); Luciana Lara e Valéria Lehmann (Distrito Federal);Tica Lemos e Marta Soares (São Paulo); Sylvia Fernandez (Bolívia) e Luis Garay (Argentina). Tivemos, ainda, o apoio logístico e de produção de Susana Sarue. O Encontro de Criadores e Coreógrafos da NovaDança é um evento idealizado e produzido por Giovane Aguiar.

Dudude Herrmann apresentou na abertura do Encontro aquilo que posso chamar de programa de vida:"desmanchar a dança dançando", em "perseguir o desaparecimento", deixando "as coisas falarem", na tentativa de "fortalecer suas próprias incertezas". Luís Garay expôs seu modus operandi de criação, que tem por base referências exteriores à dança, como trabalhos de fotografia, música, arquitetura etc. Luís disse que sua criação não consistia propriamente em extrair algo de sua cabeça, mas sim em "falar por meio de outros". No Youtube vemos alguns vídeos dos trabalho coreográficos de Garay, com características pop e irônicas.

Thembi Rosa falou das suas estratégias compositivas, da parceria artística com o marido Canário, do Grivo, que trabalha com música experimental (influenciados por Cage), da necessidde de buscar o instante, de perceber o que muda, além do interesse em saber "como as pessoas fazem as coisas" em dança. Isto é, como trabalham e o que resulta desse investimento. Seus interesses se direcionam para uma pesquisa da presença e dos estados corporais. Tenho sempre assistido aos espetáculos de Thembi, acompanhando suas perguntas. O que me chama a atenção é sua busca acurada, numa visão que inclui o aleatório, as conexões não previsíveis e a resposta do seu corpo.

Marta Soares, professora, coreógrafa e performer, expôs sobre as relações entre corpo e ambiente. Suas referências vêm das artes plásticas, da filosofia e da literatura. Ela conta que busca não mais uma dança baseada no movimento pelo movimento, mas sim a partir de uma imersão naquilo que posso chamar de estados corporais, envolvendo o ambiente. Seu tema de doutorado é o "esgotamento do corpo". Ela coordenou uma "sala" que seria um laboratório num lugar específico, particularmente num ambiente natural, fora do estúdio. O grupo que aceitou o "convite" era formado por Luís Garay, Margô Assis e Wenderson Godoy. Eles vasculharam a região de Perinópolis, encontrando num dos "santuário ecológicos" (mata nativa preservada), numa cachoeira, o site specific. O estudo envolveu as idéias de contenção, deslocamento e composição. O laboratório resultou, então, numa instalação corporal, configurando aquilo que chamo de habitar uma duração.

Wenderson Godoy fez um relato do movimento artístico-cultural de Ipatinga, no Vale do Aço em Minas Gerais. Faz parte do Hibridus, um coletivo de artistas de várias mídias (dança, fotografia, artes plásticas), envolvidos num processo colaborativo de pesquisa, com base em dança e arquitetura.

Margô Assis relatou sua parceria com Luciana Gontijo (a quem devo também uma parceria de quase dois anos, influenciando e modificando meu olhar sobre a corporalidade no teatro). A trajetória de Margô passa pela busca das instabilidades, da pesquisa em parcerias com artes plásticas, nod diálogos com a designer de luz Thelma Fernandes e com o Grivo, num projeto intutlado por ela de "dança precária".

Silvia Fernandez expos suas experiências na Bolívia: as trajetórias da dança moderna, o surgimento do interesse na dança contemporânea e o trabalho de formação. Sylvia falou muito das relações entre a parte rica e pobre da cidade, das várias identidades culturais e costumes que compõem um verdadeiro mosaico e, principalmente, de como a dança pode se haver com esse universo.

Luciana Lana, da CiaAnti-Status Quo de Brasília, também trabalha com o processo colaborativo nas suas criações coreográficas. Há um cuidado extremo na confecção do espetáculo, na pesquisa temática e sensorial. A cada espetáculo, Luciana trabalha com elementos e técnicas diversas. O processo envolve a conjução dos elementos como luz, cenografia, criação corporal e sonoplastia, de tal modo que, segundo me parece, uns provocam os outros. Numa de suas criações, Luciana Lara traz o público para dentro do palco, melhor dizendo, para dentro do palco.

Paola Rettore expôs na "sala" de processo criativo, coordenada por Luciana Lara, diversos procedimentos e meios de criação. Com uma trajetória marcada por dança, experimentações, improvisação, instalações cênico-corporais, vídeos, poemas, desenhos e objetos, Paola mostrou uma produção sem fim. O que ela faz, disse, parte sempre de uma necessidade e nem sempre isso precisa fazer parte dos circuitos convencionais de arte (galerias, palcos etc.). São encontros inusitados, pequenos grupos que aparecem, oportunidades que a convocam etc. Muitas parcerias são com o artista Marcelo Kraiser, como vários vídeos e um dos mais recentes trabalhos, Pequenas navegações. "Meu trabalho é feminino, são pequenas coisas", diz Paola. Esse tipo de relação com a arte, que a reinsere em circuitos outros de vida, produzindo novos agenciamentos, zonas de experimentação. Trabalhos performáticos que são atos que abrem hiatos no cotidiano, a partir de nexos de sentido outros: exemplo disso é a sequência de fotos de seios de mulheres que a visitavam num determinado momento de sua vida. Uma das performances-instalações que mais me chamam a atenção, principalmente do ponto de vista da teatralidade, é a obra-processo Desconsiderare II, realizado no Equador (vide noutra postagem minhas considerações sobre o vídeo que eu vi).

Ainda na sala processo criativo, Dudude Herrmann apresentou seus trabalhos, principalmente o projeto Poética de um andarilho. Neste, ela pretendia "dançar na invisibilidade da dança", descobrindo um "corpo farejador". Como subtítulo de a escrita do movimento no espaço do fora, Andarilho foi uma pesquisa improvisacional em uma situação não dada como a de um espetáculo ou evento de dança, mas "uma dança escondida na dança". Ou seja, a bailarina/performer situava-se em praças públicas e "evitava de impor às relações e ao corpo social o seu julgamento."

Conheci também Valéria Lehmann, uma musicista e soundesigner que fez trilhas sonoras para a Cia Anti-Status Quo. No Encontro ela montou um mini-estúdio sonoro, realizando intervenções, oficinas e performances. Valéria transita da música contemporânea para a música popular tradicional (além do curso acadêmico de música, estuda pífano com o mestre Zé do Pife). Conversamos um bocado sobre música e convergências: Valéria me contou que vê a música popular tradicional numa dimensão contemporânea, fora de perspectiva histórico-cronológica. Assim, há uma radicalidade nessa música que dialoga diretamente, diz ela, com as vertentes mais contemporâneas.

Na "sala" sobre improvisação, coordenada por Paola Rettore, tivemos um belo relato de Tica Lemos. Ela falou sobre sua trajetória em dança, pesquisa corporal e improvisação. Tica é 4o Dan de Aikidô e uma das pioneiras da Contato-improvisação no Brasil. Sua ênfase recai sempre na questão da consciência corporal, que ela associa à Nova Dança. Em diversos momentos abordou aspectos dessa consciência em dança que ela chama de "curativos" - numa "educação somática, de união corpo-mente." Quanto à improvisação, Tica traça uma relação imediata com a composição e com o conceito de intérprete-criador em dança: na quebra da hierarquia entre coreógrafo/diretor e performers. Uma pesquisa que parte das "sensações físicas dos intérpretes". Tica colocou também que o improvisador tem de ter uma "certa calma", ver "que imagens ficam". É necessário um tempo "para achar a coluna" e, então, partir para a composição.

II. Algumas questões

Diversas perguntas me visitaram. Algumas eu tentei trazer para o grupo, mas não foi possível atualizá-las em meio a tantas outras que emergiam, energias que se cruzavam, tensões que puxavam o entendimento etc. Falo, por exemplo, do desafio de compor com corpos que não são treinados em dança. Como eles podem modificar tanto o plano do performer quanto da performance? Trata-se das potências de paisagens visuais e sonoras, nas quais o performer perde ou cede o seu lugar central (da virtuosidade exposta e do espaço existencial que lhe é garantido pela "arte") para abrir um pouco de caos no seu mundo. Corporalidades outras possuem essa potência. O que pode soar como um "ultraje" para quem foi treinado anos e anos no campo da apresentação artística. Ou como "piedade" (visão assistencialista da arte), ou, ainda, como novas codificações. Não, trata-se de outra coisa.

A Poética de um andarilho, de Dudude Herrmann apresenta uma convergência nessa questão. A performer não se sobrepõe ao espaço, aos outros. Obviamente que era, pelo que percebemos do seu relato, cada vez mais empurrada numa espécie de transe naquele espaço, principalmente quando entram os objetos, o estandarte etc. Mas é um princípio interessante. Esse interesse, ao qual exponho aqui, tem por fundo as criações cênicas de Robert Wilson nos seus primórdios. Um autista foi um dos seus parceiros de criação, para dar somente um exemplo. E tem a ver com o reconhecimento de outras poéticas corporais. Não estou falando de movimento, de habilidades ou desabilidades, dos códigos que têm seguido a dança por esses caminhos...

Paola Rettore, para dar outro exemplo, tem aberto vias não codificadas no circuito espetacular. Ela trabalha noutro registro, que leva para essas paisagens. Não é um trabalho para a distinção de egos, mas de profunda humildade do performer em deixar revelar o outro que não domina suas ferramentas. O que exige, antes de tudo, um grande domínio de uma técnica outra: a de deixar o espaço falar, no caso, o espaço do outro...

Andei pesquisando alguns elementos nessa direção: na intervenção cênico-urbana Fudidos, na região da prostituição pobre de Belo Horizonte, envolvemos grupos humanos como eles vivem cotidianamente. Havia uma cena, por exemplo, em que as prostitutas discursavam no microfone, defendendo a profissão diante da cidade. No final, um grupo de garis fechava varrendo e dançando nas ruas, enquanto uma gravação exibia a voz de Nelson Cavaquinho, com o seu Juízo Final e o público dançava junto, com o apitos que haviam sido utilizados por ele na cena anterior. Posso lembrar aqui, também, de um laboratório de criação que realizei há alguns anos com uma jovem psicótica: relatei essa experiência na minha dissertação de mestrado, de como aprendi sobre o tempo lento e no seu desdobrar para as pequenas percepções.

Paulo Rocha, ator e performer, me chamou a atenção, uma vez, para a noção de ready-made performático , uma expressão cunhada pelo artista plástico Yftha Peled. Ele dá como exemplo, principalmente, o que ocorre com o casal de profissionais pornôs que atuaram num espetáculo do Teatro da Vertigem.

Porém, mais do que introduzir elementos do real (da não ficção) numa cena, trata-se de pensar novos agenciamentos em arte. Principalmente aqueles que não foram previamente programados. Um corpo estranho à dança, por exemplo. Um corpo comum e, ao mesmo tempo, um corpo singular.

O que isso tem de importância para a arte e para aquilo que pode nos surpreender? O encenador Peter Brook disse, numa visita ao Brasil, que não há algo mais interessante do que observar seres humanos. Não em termos de observação cotidiana simplesmente, mas de como um corpo humano pode tomar uma presença na cena. Ele nos ensinou a olhar simplesmente. E o fez com a pessoa que o entrevistava. Aquilo me modificou profundamente. Percebi que precisamos mexer demais, mostrar demais, querer se expressar etc. Mas nada disso tem a real grandeza de um ser humano, na sua singularidade, diante do nosso olhar.

No caso, acredito que devemos buscar os corpos em situações e/ou devires minoritários. Então, artista, você aceita o desafio?

Por fim, só posso dizer que a diversidade é infinita. E que um exercício para o pensamento seria o de evitar a armadilha de deduzir da diferença a identidade. Conseguiríamos, no máximo, confortar aquilo que já sabemos.

E para encerrar, cito o vídeo de Daniel Lepkoff (EUA), exibido numa das "salas". Pude ver algo que modifica completamente o lugar da dança e do movimento (e do corpo). Fiquei impressionado com a sutileza da pesquisa, em termos de consciência corporal que segue sua própria fisicalidade.

As questões continuam.


7.2.09

Festival Novadança: Encontro de Criadores e Coreógrafos


O Festival Novadança, de Brasília, sempre promove o Encontro de Criadores e Coreógrafos: um tempo e um espaço para acontecer coisas, expor idéias e pesquisas. Desta vez, o evento ocorre em Pirenópolis. É uma imersão de 07 dias, mais de 10 horas por dia, em temas da dança e suas conexões. Coragem, diria o meu amigo André Ferraz! A direção do Festival me convidou para participar do Encontro. Estaremos lá, entre os dias 09 e 15 de fevereiro, discutindo as fronteiras da criação, do movimento e do corpo, assim como as transdisciplinaridades.

Posso adiantar algumas questões que têm me tomado nestes dias: as possíveis conexões entre a pesquisa improvisacional e os estudos relativos ao campo da emergência e da meta-estabilidade, as poéticas dos corpos não treinados, oTeatro Físico, os estudos de composição e indeterminação (Cage) etc. No entanto, num encontro desses, acredito que o melhor é sintonizar-se com o não-pensado - deparar-se com o fora, como diz Blanchot. Aliás, nossa vida é criar estratégias para isso: olhos novos para o novo.

14.10.08

Eduardo Fukushima: repercussões

De Clésio Luiz S. Júnior, sobre a performance Entre Contensões:

"Há algum tempo venho me interessando e intensificando pesquisas em
Grotowski. Pude conhecer o Zikzira e acabei por encontrar o seu blog, que aliás tem ótimo conteúdo e dicas acerca da arte do ator nas suas mais diversas vertentes, e acabei me associando a ele [por isso recebi seu artigo].

Também fui conferir o Eduardo Fukushima - e me aproximar da Zikzira para fomentar minhas pesquisas - e de fato, o trabalho dele é bastante peculiar no que diz respeito à dança. As ações físicas são uma prática no teatro, já a precisão de uma partitura ou uma sequência de movimentos precisos pouco se vê nesse mesmo teatro.

O interessante em Fukushima é que sua partitura de ações físicas conta com uma expressividade lotada de signos e é isto que faz a diferença em sua dança, mais do que ritmo e movimento, a dança de Fukushima é rica de gestos e significados.

Ouvir Eduardo, Helena, Zikzira e a platéia alimentou ainda mais as idéias e sensações daquela noite. No que diz respeito ao seu comentário sobre "religião" tendo a endossá-lo. Há, de fato, no trabalho de criação do ator/bailarino, do artista de modo geral [artista no sentido puro da palavra], uma relação imaterial e de transcendência ou, pelo menos, de uma metafísica da interioridade que coloca o sujeito artista em convergência com seu ego, com seu eu, tornando a consciência de si e do mundo um tanto mais aguçada."

17.8.08

Paola Rettore: dança/performance/vídeo


Imagem: Marcelo Kraiser

O site de Paola Rettore traz imagens e textos de suas performances, incluindo material de outros artistas e teóricos.

De minha parte, fascinante é o vídeo da criação cênico-corpórea intitulada Desconsiderare II, realizada no Equador: um grupo de mulheres num banheiro masculino, com Paola dançando num plano mais elevado. A performance produz uma atmosfera estranha, sensual e despudorada. Aliás, atmosfera é o termo que Marcelo Kraiser utiliza para dizer da força das artes da performance. Gostei demais. Tudo o que muitas performances frívolas, que se intitulam de arte contemporânea, não conseguem realizar: coragem e poesia de quem faz (na próxima postagem eu falo sobre esse assunto).

29.7.08

Momentum: a composição no instante


Momentum - a composição no instante - acontece no Teatro Marília (BH), de 05 a 09 de Agosto, às 20 horas. A entrada é franca. A curadoria é de Dudude Herrmann.

O projeto tem no blog
Converse: Arte Expandida o espaço no qual público, criadores, editores, consultores e curadores publicam textos e notícias sobre criações híbridas, intervenções urbanas, improvisação como lugar de indeterminação e experimentação das linguagens artísticas.

A cada dia de apresentação, um trio de bailarinos/atuantes que nunca trabalharam entre si arriscam diante do público, no procedimento de criação
instant compostion (composição no instante).

A coisa é instigante: um espetáculo/encontro único - uma configuração que não se repete.


Se eu fosse você pegava o seu lugar:

Dia 05/08: André Lage, Andréa Ainhaia e Peter Lavrati
Dia 06/08: Tuca Pinheiro, Patrícia Siqueira e Rodrigo Quik

Dia 07/08: Bruno Bizzoto, Fábio Dornas e Rodrigo Campos

Dia 08/08: Cristiano Bacelar, Maurício Leonard eTana Guimarães
Dia 09/08: Retorno da Diferença


Momentum
está na sua terceira edição. E a novidade desta é que no último dia acontece o Retorno da Diferença - no qual todos os bailarinos/atuantes voltam, incluindo os que participaram das outras edições, para um espaço mais flutuante, com riscos diversos e discussões, envolvendo o público também.

Veja também:

Quik Cia de Dança
Movasse
i Dança
Giovane Aguiar

7.1.08

Fábrica de sentidos: blog de Fabrícia Martins

Do blog de Fabrícia Martins, um texto sobre um Festival de Artes de Paris, ocorrido em Novembro de 2007, em que ela relata três peças muito interessantes:

"Greve no sistema de transporte público, movimentos sociais, manifestações nas ruas e nas universidades. A temperatura pode chegar a –1°c. Em meio a tudo isso, vários dispositivos cênicos vêm se juntar às reflexões sobre modos de ver e de fazer «Arte» – em pauta por aqui nesse momento. Estamos falando do Festival «Les Inaccoutumés – Objet Chorégraphique Contemporain» na Ménagerie de Verre (www.menagerie-de-verre.org), que conta com 12 espetáculos e 25 noites dedicadas à dança e ao «Festival d’Automne» (www.festival-automne.com) que se espalha por teatros, salas de concerto, bares e cinemas. Esse último, na sua 36° edição, teve seu início no dia 13 de setembro e se estende até ao dia 22 de dezembro abrangendo artes visuais, música, teatro, dança, performances, poesia e cinema."
Leia o texto completo

Conheci Fabrícia em Belo Horizonte, quando partilhamos momentos no Curso de Artes Cênicas da Escola de Belas Artes/UFMG. Eu, um cara que buscava outra coisa que não mais o teatro dramático, ela uma bailarina com uma trajetória de dedicações, sutilezas e texturas, também em busca de outra dança.

Fabrícia está na França dedicando-se à dança experimental. O seu blog, sobre o qual ela mesma me disse, é tanto um meio de expor e pensar pesquisas em dança quanto um modo de aproximar-se das pessoas. Afinal, de arte e de bons encontros - é disso que necessitamos para atravessar um tempo deste maravilhoso planeta.

19.11.07

Site de Katie Duck: dança improvisacional




Katie Duck, performer de dança improvisacional e coréografa colocou no ar seu novo site. Katie esteve no Brasil em diversas ocasiões ministrando oficinas de improvisação e composição. No site há textos que abordam desde aspectos da história da dança contemporânea, na conexão Reino Unido/EUA, até informações sobre os procedimentos compositivos de Katie Duck. Chamo a atenção, particularmente, para um vídeo em que ela dança uma suite de Bach: sobriedade de linhas e precisão.

Alguns podem pensar que os procedimentos compositivos de dança pesquisados por Duck são utilizáveis somente em dança - grande engano. Até porque, numa perspectiva de obras híbridas e espaços entre, não se trata mais de pensar em linguagens isoladas. São poéticas do movimento-corpo-som-imagem.

Para as minhas pesquisas de treinamento em e como criação, extraio dos toques de Katie, dois procedimentos básicos, entre outros: a) aprender a compor através do sair, do deixar, do retirar-se do jogo cênico; b) a distinção entre escolha (choice) e acaso (chance). Não se trata de regras e improvisação - porque, aqui, estamos não no campo da estrutura, mas das forças em interação. São procedimentos técnicos que impulsionam os peformers da criação corpórea a um exercício sóbrio e livre ao mesmo tempo. A precisão é o intervalo de uma velocidade e não uma coisa dada e conferida por alguma autoridade (estética ou que seja).

A utilização de acasos (ecos de Cage) aparece, ainda, como ferramenta importante para a improvisação. No entanto, em busca da mudança, que é necessária, passamos a fazer escolhas sem a criação de um plano de imanência: um plano de escuta do espaço da atuação. Por outro lado, Duck mostra que, paradoxalmente, somente podemos ter acesso aos acasos através de escolhas. Mas, ainda, trata-se de perceber o que está emergindo no campo.

E no caso de compor com a saída, este é um exercício de grandes potencialidades. Os performers aprendem o desapego e, o que é vital, o retorno para o vazio.

21.9.07

Instant Composition: Momentum





















O projeto Momentum composição no instante – apresentou quatro performances improvisacionais no Teatro Francisco Nunes, nos dias 11, 12, 18 e 19 de setembro de 2007. A curadoria é de Dudude Herrmann, que escolheu, para cada dia, trios de bailarinos/performers que não estavam habituados a trabalharem entre si, para que realizassem composições no instante.

O Projeto da Prefeitura de Belo Horizonte/Fundação Municipal de Cultura/Diretoria de Teatros, faz parte da ação Arte Expandida – experimentação nos Teatros Municipais.

Dudude diz que o projeto é “um exercício pleno de desapego, em que improvisação, dança e composição estão, o tempo todo, se fazendo e desfazendo, em um constante devir de mundaças”. Os bailarinos/performers têm apenas uma tarde para se preparem, estabelecendo protocolos (negociações) de uso do espaço, equipamentos, iluminação, sonoplastia etc. À noite, diante do público, criam uma obra instável e permeada de riscos.

Na primeira noite(dia 11), Momentum apresentou Letícia Carneiro, Lívia Rangel e Lourenço Marques. Esse coletivo instaurou a platéia no palco, em arquibancadas (o que foi utilizado por todos os outros em seguida), definindo um espaço mais intimista (poltrona, mesa, toca discos), utilizando ainda as cordas de marinharia do teatro com suas maleguetas como fundo, a escada que vai para a varanda e urdimento. Houve uma escuta muito atenta entre eles, não só através de suas ações e desenhos corporais (sempre muito sóbrios), mas principalmente de suas musculaturas. Criou-se uma tensão entre os corpos, ocorrendo a construção de uma cena diante do público.

Na noite seguinte (dia 12), Marise Dinis, Margô Assis e Sérgio Penna. Os três partiram de uma série de elementos que solicitariam seus corpos: propostas de ação feitas por pessoas que enviaram mensagens eletrônicas etc. Os três envolveram também a platéia, sendo que algumas pessoas foram convidadas a improvisar com os três. A fragmentação da possível narrativa corpórea foi um dos recursos utilizados pelo grupo: ora um elemento entrava como texto a ser lido, ora uma tilha sonora, sempre produzindo interrupções. Trata-se de uma descontinuidade radical, produzindo cortes de fluxo, procurando, o tempo todo envolver o público como parte da paisagem de dança.

No dia 18, na terceira noite, Izabel Stewart, Carlos Arão e Thembi Rosa utilizaram as duas platéias (as arquibancadas no palco e a platéia de 55o lugares do Teatro Municipal). Utilizaram todo o espaço, com recortes de luz circulares, canhão de luz e sem trilha sonora. Intitularam de “árido, cru e seco” a intervenção/composição na platéia e palco do Teatro. Carlos Arão fez emergir uma corporeidade xamânica, de forte presença impactante, mas muito silenciosa e atenta. Thembi compunha uma partitura proposta inicialmente pelo seu marido, Canário, músico do Grivo. E Izabel, com um vestido imenso, mantinha-se aparecendo e desaparecendo dos focos, utilizando principalmente a platéia mais vazia do fundo do Teatro. Esse grupo explorou bastante o espaço, compondo com uma recusa em criar significações fechadas.

Por fim, no dia 19, Momentum encerra com Heloísa Domingues, Cristina Rangel e Paulo Azevedo. Os três começaram com utilização de objetos, simulando o espaço de uma academia de ginástica. O tema era o zero e seus desdobramentos. Utilizaram, ainda um microfone em cena. No final, uma bela surpresa: fazem entrar em cena um carrinho de pipoca e de algodão doce.

Momentum teve, a cada noite, um debate com o público, formado por artistas de dança e teatro e outros.

Sobre o projeto e os planos que ele instaura e convida a habitar, destaco:

  1. O que está em foco é a composição no instante (instant composition). Nesse procedimento, o que conta é justo a velocidade de compor no aqui-e-agora, diante do público. Um dos caminhos trilhados na dança improvisacional contemporânea exercita-se menos no não programado e mais na tentativa de incorporar a indeterminação, para lembrar John Cage. Aliás, Cage não acreditava em improvisação e, no entanto, a dança como performance improvisacional teve impulso a partir dele.
  2. Nesse procedimento (experimental) não há regras. As regras são inventadas enquanto se joga.
  3. isso não significa que não haja técnica. No entanto, técnica é um agenciamento maquínico (Deleuze e Guattari): desejo.
  4. Os artistas foram escolhidos pela curadora devido às suas habilidades – ou seja, porque dominam técnicas compositivas.
  5. Entre as técnicas de composição no instante, lembro o que chamamos comumente de “capacidade de escuta”. Para um procedimento técnico de criação que não se desenvolve por regras ou improvisação estruturada, esse é, com certeza o elemento mais importante. Alguns coletivos, em Momentum, tiveram em maior ou menor grau a capacidade de escuta. Conversando com Dudude Hermann, que vem estudando há anos procedimentos é técnicas de composição improvisacional em dança, a escuta é um farejar. Lembramos a criança quando brinca: uma faz um movimento, mantendo a sua ação, enquanto “fareja” o outro sem precisar de se relacionar diretamente com ele. Ou seja, sem ficar preso ao outro. Há diálogo físico, sensorial.
  6. Percebi na edição 2007 de Momentum dois tipos de escuta: a que se faz com a musculatura (com o tônus) e aquela que acontece com as imagens.
  7. A escuta é uma estratégia de silêncio. E o que é o silêncio senão um modo de se permitir que algo possa emergir no campo da percepção (emergência de campo)? Novamente, John Cage: o lugar no qual se dá a performance não é determinado (as estratégias de compor com os acasos).

Dudude Herrmann tem realizado um movimento avaliativo que permite focar a performance de dança improvisacional - suas estratégias, como a questão da escuta, seus "buracos" (lugares onde caimos no desespero de ficamos tentanto preencher o vazio) etc. Os artistas participantes têm feito propostas de aprofundar o projeto, de modo que o campo instaurado por Momentum possa produzir novas conexões.

Momentum deixa uma série de indagações. Os debates foram intensos, trazendo um frescor de idéias e sensações. Há uma coisa que tem a ver com um “espírito de época” nisso tudo. Não de modo datado - um movimento parado. Mais do que isso, a energia das pessoas que buscam, na crosta do planeta Terra, estratégias de sobrevivência. A incorporação do precário, do atravessamento (como sugere sempre a curadora Dudude Herrmann), enfim, de uma realidade em puro devir, faz parte desse espírito de época. O blog voltará ao tema.


Referências:

Imagens da Edição 2007 de Momentum: Glênio Campregher -

Para saber mais:


- A coreógrafa, pesquisadora e performer de dança improvisacional, Katie Duck discute no seu site (em inglês) procedimentos técnicos que interessam ao campo. Entre os temas, a distinção entre improvisação por escolha (choice) e por acaso (chance).
- Na Revista eletrônica Polêmica Imagem, n. 20 (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), apresento algumas Anotações sobre teatro e experimento.
- Em Belo Horizonte, o Studio Dudude Herrmann realiza sempre cursos e conferências sobre improvisação e dança.
- Conexões entre as linhas de errância do brincar e o plano de experimentação abrem potencialidades. No blog sobe Cultura do Brincar fiz uma postagem intitulada justamente de Linhas de Errância, na abertura.

- Fernando Pinheiro Villar analisa uma performance de dança improvisacional. Leia em
Palavras em movimento: Nova Dança 4 e outros trânsitos. In: André Carreira; Fernando Pinheiro Villar; Guiomar de Grammont; Graciela Ravetti; Sara Rojo. (Org.). Mediações performáticas latino-americanas II. Belo Horizonte (MG): FALE/UFMG, 2004, v. 01, p. 145-164.

22.5.07

Uma conexão Londres-Belo Horizonte: Teatro Físico & Dança Contemporânea


Tiago Gambogi e Margaret Swallow, da Cia f.a.b. - The Detonators , ele brasileiro e ela inglesa, são dois artistas que vêm realizando uma criação cênica processual que perpassa tanto os planos de um teatro físico quanto os da dança contemporânea. Os dois realizaram recentemente Made in Brasil (imagem ao lado), com direção de Nigel Charnock , um dos fundadore s do grupo de Teatro Físico, DV-8, com cenas criadas em Belo Horizonte e Londres. A estréia ocorreu no Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte,em maio de 2005. Made in Brasil é um espetáculo no qual a imagem projetada (vídeo), a sonoridade (vocal e gravada), a ação e o movimento perpassam seus planos heterogeneos. Tiago me contou, numa entrevista realizada em 2005, que Nigel Charnok, ao ser convidado para dirigir o espetáculo, considerava o tema "Brasil" muito amplo, que era preciso partir de algo mais concreto. E o que tinha em mãos era uma dupla de artistas que vivem e criam juntos. Mas não versa a composição cênica sobre um possível "drama" de um casal, mas sobre uma carta que é rabiscada e redesenhada diversas versas. Há traços intensivos sobre o Brasil, como o vídeo mostrando uma paisagem contínua de paredes pixadas e som de cães latindo enquanto um casal realizada uma coreografia de contato físico sobre um monte de jornais. Ou em outros momentos, em que a realidade macabra da violência é desenhada cenicamente. Mas, o tempo todo, o espetáculo joga com a relação de continuidade e descontinuidade. Quando o significado vai se configurar numa identificação emocional, numa significação (fechamento do sistema), Nigel joga com o distanciamento, utiliza elementos de clown, interrompe para entrar com outro plano midiático (som, imagem etc.). O espetáculo flui, assim, entre performance, simulação, jogo, fantasia, projeção de imagens etc.

Tiago está com um novo espetáculo, agora de sua direção, trabalhando com outros performes, no Bath Dance, intitulado ID, na qual aborda os instintos primais e os impulsos na busca da identidade. Ele continua seu caminho, num espaço entre dança e teatro: no qual o corpo é experimentado a partir de suas qualidades energéticas, como ele fez questão de frisar na entrevista realizada.