16.10.08

Corpo sem Órgãos (1): um texto de Esther Díaz

"El deseo es entonces una producción social. La producción deseante se organiza mediante un juego de represiones y permisiones. Tal juego carga energía libidinal en la sociedad. La carga de deseo es “molar” en las grandes formaciones sociales y “molecular” en lo microfísico inconsciente. Lo molar es deseo consciente, representación de objetos de deseo, y se origina a partir de los flujos inconscientes del deseo o cuerpo sin órganos.

El cuerpo sin órganos es el inconsciente en su plenitud, esto es, el inconsciente de los individuos, de las sociedades y de la historia. Se trata del deseo en estado puro, que aún no ha sido codificado, que carece de representación o de “objeto de deseo”. Es el límite de todo organismo; porque cuando ya se es organismo, la pulsión inconsciente está codificada, aunque el cuerpo sin órganos siga delimitando el plano de organización de los individuos. El cuerpo sin órganos no es erógeno, porque “erógeno” o “sexual” ya son codificaciones. Como antecedente conceptual el cuerpo sin órganos de Deleuze y Guattari tiene como antecedente histórico la voluntad de poder nietzscheana y –cambiando lo que hay que cambiar- la sustancia de Spinoza. El cuerpo sin órganos es un inconsciente no personalizado que palpita en cualquier forma viva.

La matriz de toda carga de energía libidinal social es el delirio. Delirio, aquí, no se entiende como categoría psicológica individual, sino como categoría histórico social. El delirio se desplaza entre dos polos, uno tiende a homogeneizar el deseo de las grandes poblaciones desde los centros de poder y el otro trata de huir de esa masificación deseante codificada, siguiendo alguna posible línea de fuga del deseo (molecular). El delirio es el movimiento de los flujos del deseo. Puede ser paranoico, esquizofrénico o perverso. Pero tampoco estas categorías refieren a entidades psicológicas individuales, ni tienen connotación de “enfermedad” (por lo menos, no de enfermedad subjetiva), se trata de distintas modalidades del deseo que se manifiestan en lo social."

Esther Díaz - Gilles Deleuse: Pós-capitalismo y deseo -

14.10.08

Eduardo Fukushima: repercussões

De Clésio Luiz S. Júnior, sobre a performance Entre Contensões:

"Há algum tempo venho me interessando e intensificando pesquisas em
Grotowski. Pude conhecer o Zikzira e acabei por encontrar o seu blog, que aliás tem ótimo conteúdo e dicas acerca da arte do ator nas suas mais diversas vertentes, e acabei me associando a ele [por isso recebi seu artigo].

Também fui conferir o Eduardo Fukushima - e me aproximar da Zikzira para fomentar minhas pesquisas - e de fato, o trabalho dele é bastante peculiar no que diz respeito à dança. As ações físicas são uma prática no teatro, já a precisão de uma partitura ou uma sequência de movimentos precisos pouco se vê nesse mesmo teatro.

O interessante em Fukushima é que sua partitura de ações físicas conta com uma expressividade lotada de signos e é isto que faz a diferença em sua dança, mais do que ritmo e movimento, a dança de Fukushima é rica de gestos e significados.

Ouvir Eduardo, Helena, Zikzira e a platéia alimentou ainda mais as idéias e sensações daquela noite. No que diz respeito ao seu comentário sobre "religião" tendo a endossá-lo. Há, de fato, no trabalho de criação do ator/bailarino, do artista de modo geral [artista no sentido puro da palavra], uma relação imaterial e de transcendência ou, pelo menos, de uma metafísica da interioridade que coloca o sujeito artista em convergência com seu ego, com seu eu, tornando a consciência de si e do mundo um tanto mais aguçada."

8.10.08

Entre contenções: a poética de Eduardo Fukushima

No Zikzira Espaço Ação, pude assistir à dança-performance de Eduardo Fukushima, seguida de debate com ele, Helena Katz e público.


Por que chamo de dança-performance? Porque já é uma dança outra: os movimentos são contidos, com alguns deslocamentos em linha, onde atuam gestos e forças. Falo de uma dança outra porque se trata de pura singularidade. Não se parece com nada.

De minha parte, digo que a performance/dança de Eduardo me retira de todos os lugares convencionais do que se chama dança. De sua expressividade idealizada, dos movimentos que começam sempre pelas pontas e envolvem articulações etc. Daquilo que eu sei - por hábito, por memória - isto é dança!

Fernanda Lippi e André Semenza do Zikzira Teatro Físico, falaram do projeto Solilóquio: das actions de Grotowski, mas que, diferente dele que buscava a Arte como veículo, seriam realizadas diante do público. O Zikzira proporciona, assim, as trilhas para algo que já não é mais dança, que já não é mais teatro...

Helena Katz fez observações e perguntas diretas a Eduardo, a respeito do seu processo de criação. Ele contou-nos um pouco de sua história, dos seus procedimentos criativos, do seu processo de trabalho. Uma história que é uma vida, com seus traços e embates. Helena Katz falou de algo que me chamou muito a atenção: sobre as informações conectadas por hábito, como ocorre não só nos movimentos cotidianos mas, também, no universo da dança, e que Eduardo Fukushima subverte tão bem.

No meio das discussões que acabariam por remeter tais expressividades a um universo pessoal, Marcelo Kraiser, na platéia, lembrou que a arte levava antes a um impessoal.
Eduardo cria uma paisagem que pertence somente a ele, sem ser contudo, justamente, da ordem do pessoal.

O que eu vejo na criação de Eduardo Fukushima: se todas as religiões do mundo acabassem - e já acabaram, apenas que elas não sabem disso - ele teria inventado uma: a sua dança. Mas essa seria uma religião que não serviria para ninguém. Somente para ele. E é uma coisa do deserto. Algo do maravilhoso.

2.10.08

Estarei lá: Eduardo Fukushima no projeto Solilóquio

Zikzira Espaço Ação traz no projeto Solilóquio o performer paulista Eduardo Fukushima, nos dias 04 e 05 de outubro, às 20 horas. No dia 04 haverá um debate com Helana Katz.

Agenda:
EDUARDO FUKUSHIMA – SOLILÓQUIO
Data: 04 e 05/10 (20h)
Local: Zikzira Espaço Ação (Rua Laplace, 18A - Santa Lúcia / BH-MG)
Contato: (31) 3293-0833
ENTRADA FRANCA - Os ingressos podem ser retirados 1 hora antes do espetáculo. Censura Livre.

28.9.08

Cibernética by Timothy Leary by Augusto de Campos

Do catálogo "POIESIS. ENTRE_PIXEL_E_PORGRAMA" (sugestão de Ricardo Aleixo, que participa do evento a Oi Futuro), uma definição de cibernética por Timothy Leary - visionário que trocou o LSD pelo PC -, num trecho do texto de Augusto de Campos intitulado "Do caos ao espaço ciberal", no qual o poeta-ensaísta-tradutor resume algumas "provocações de Leary, colecionadas e colacionadas das suas principais
idéias, que poderiam compor uma espécie de manifesto ciberal
":

“Cibernética” vem do grego, kubernetes, piloto. A origem helênica dessa palavra é importante enquanto reflete as tradições socrático-platônicas de independência e autoconfiança individual. Quando traduzida para o latim, porém, a palavra grega surge como “gubernaetes”. O verbo básico “gubernare” significa controlar as ações ou condutas, dirigir, excercitar a autoridade, submeter, comandar. Esse conceito romano é obviamente muito diferente da noção helênica do “piloto”. A palavra “cibernética” foi cunhada em 1948 por Norbert Wiener, que escreveu: “decidimos chamar todo o campo da teoria do controle e da comunicação, quer se trate de máquina ou animal, pelo nome de Cibernética, que formamos a partir da palavra grega para timoneiro”. Wiener e os engenheiros romanos corromperam o significado da palavra “cyber”. A palavra grega “piloto” transforma-se em “governador’ ou “diretor”, o termo “guiar” torna-se “controlar”. Cumpre libertar o termo, reetimologizá-lo, redirigi-lo a um conceito autopoético. A palavra “governértica” se refere a uma atitude de controleobediência em relação a si próprio e aos outros. Os termos “pessoa cibernética” ou “cibernauta” nos fazem retornar ao signficado original do “piloto”. Essas palavras (e mais o termo pop “cyberpunk”) se referem à personalização da tecnologia de informaçãoconhecimento, ao pensamento inovativo da parte do indivíduo. Tais expressões podem descrever um novo tipo de modelo de ser humano e uma nova ordem social. “Cyberpunk” é uma terminologia popular, que pode ser aceita num sentido tolerante de humor “high tech”, uma granada-significado atirada contra as barricadas conservadoras da lingugaem. O cibernauta ou “cyberpunk” é o piloto que pensa clara e criativamente, usando aplicações quântico-eletrônicas e “know how“ cerebral, o novo, atualizado modelo de ponta do sec. 21. Homo sapiens sapiens cyberneticus. O modelo clássico do Velho Mundo Ocidental para o“cyberpunk” é Prometeu, um gênio tecnológico que “roubou” o fogo dos Deuses e deu-o à humanidade.


Mais referências:
Site da Oi Futuro
Dowload do Catálogo
Site de Timothy Leary

23.9.08

Fábulas do Agora: Movasse em intervenção urbana




Movasse - coletivo de bailarinos/performadores - apresenta a inervenção urbana Fábulas do Agora, no Mercado Central - escada da Rua Curitiba (Belo Horizonte).
A performance ocorrerá nos dias 25 e 26 de setembro de 2008, às 11:00 horas (entrada franca).
O grupo realiza intervenções nos espaços do Mercado Central, em meio aos visitantes, consumidores e vendedores. As ações trazem elementos que subvertem as fábulas tradicionais, dialogando com o ambiente, criando figuras híbridas.
Fábulas do Agora faz parte do projeto Laboratório: Textualidades Cênicas Contemporâneas, com a consultoria artística de Antônio Araújo (Teatro da Vertigem/SP) e curadoria de Fernando Mencarelli e Nina Caetano.

18.9.08

Improvisação Teatral: Fimpro



Está começando o Festival Internacional de Improvisação Teatral. O evento é uma realização da Liga de Improvisação Teatral de Belo Horizonte, grupo dirigido por Mariana Muniz.

Não por acaso, Belo Horizonte está sendo tomada pela performance improvisacional - desde os projetos experimentais Momentum e Improvisões (veja mais no Blog Converse: Arte Expandida), passando pelo Encontro de Improvisadores da Cia Quik, da presença de Dudude Herrmann, do último espetáculo e Adriana Banana, Kronos Material que abriga indeterminação, à Cia Acômica com sua Arena de Tolos.

O Fimpro traz espetáculos, oficinas, debates e conferências sobre a improvisação teatral. Uma oportunidade ímpar!

29.8.08

Improvisões - edição 2008


Improvisões edição 2008 está começando. E neste ano abre com o Fórum Improvisões, trazendo conferências e debates sobre o tema das improvisações intermídias, da cena em processo, dos hibridismos e narrativas contemporâneas. Nos dias seguintes, ocorrem as apresentações improvisacionais: artistas de imagem, corpo e som dialogando ao vivo, diante do público e sem hierarquias. A consultoria artística do projeto é de Marcelo Kraiser.

Programação:
30/08 (sábado): Fórum Improvisões -
10 h: Conferência de Carlos Mendonça, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, intitulada "Corpo e Mídia: entre a aproximação e o limite".
14h: Ricardo Aleixo (poeta e performer) apresenta a conferência-performance "Desvios para a dispersão: Orfeu, John Cage, Exu".
15:30: Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ e pesquisadora em arte contemporânea, faz a conferência "Arte e Dispositivos".

Apresentações:
Dia 1/09 -Peter Lavratti e Claudia Lobo (corpo)Nara Vargas, Marina Utsch e Débora Pessali (imagem)Wesley Cristiano, Gilmar Gonçalves e Leandro Oliveira (som)
Dia 3/09 - Paulo Rocha e Diogo Ribeiro (corpo)Tatu Guerra (imagem)Philippe Lobo (som)
Dia 5/09 - Livia Rangel (corpo)Elias Mol (imagem)Thiago Correa (som)
Dia 7/09 - Christina Fornaciari (corpo)Alexandre Milagres (imagem)Babilak Bah (som).

Local: Teatro Marília - Av. Alfredo Balena, 586. BH. Entrada franca.
Mais informações: 3277-4697

17.8.08

Paola Rettore: dança/performance/vídeo


Imagem: Marcelo Kraiser

O site de Paola Rettore traz imagens e textos de suas performances, incluindo material de outros artistas e teóricos.

De minha parte, fascinante é o vídeo da criação cênico-corpórea intitulada Desconsiderare II, realizada no Equador: um grupo de mulheres num banheiro masculino, com Paola dançando num plano mais elevado. A performance produz uma atmosfera estranha, sensual e despudorada. Aliás, atmosfera é o termo que Marcelo Kraiser utiliza para dizer da força das artes da performance. Gostei demais. Tudo o que muitas performances frívolas, que se intitulam de arte contemporânea, não conseguem realizar: coragem e poesia de quem faz (na próxima postagem eu falo sobre esse assunto).

8.8.08

Gilberto Gil: refazenda na cultura





















Imagem de Marcello Casal JR Abr- fonte:
http://www.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2007/09/11/1719mc198.jpg/view


Gilberto Gil deixa o Ministério da Cultura. Há uma análise muito interessante, numa entrevista concedida por Ana de Oliveira a Leonardo Brant, no blog Cultura e Mercado do Instituto Pensarte. Ana, uma especialista no tropicalismo (veja o site tropicália), repensa a Gestão Gil sob a ótica do movimento que desmontou o modelo nacionalista e trouxe novas percepções:

"Em sua complexidade conceitual, o tropicalismo assimilou matrizes criativas distintas – desde o considerado desprezível ao mais sofisticado estilo – e estabeleceu um diálogo profícuo entre cultura de massa, mercado, tecnologia, modernidade e tradição, superando velhas dicotomias éticas e estéticas.

Sabe-se que essa gestão do Ministério da Cultura empenhou-se na criação de canais de interlocução com âmbitos e manifestações culturais as mais diversas, sem prerrogativas ou discriminação entre o popular e o erudito, o regional e o urbano, o local e o global. Se muito foi feito para promover o acesso equitativo às novas tecnologias digitais, tanto se fez pela construção de uma política específica para a preservação da capoeira, por exemplo.

Em última instância – e em poucas palavras – entendo que o impulso tropicalista para a convocação geral (de parceiros, de pensamentos, de estilos, de gênios díspares) e esse amor pela dessemelhança, pela multiculturalidade, sejam pontos sensíveis dessa convergência."

A gestão Gilberto Gil continua com o seu parceiro Juca Ferreira. Vi Juca defendendo corajosamente, no meio corporativo das artes, a diversidade cultural, deslocando modos de ver, ampliando o debate. As três diretrizes do Ministério, cidadania cultural, expressão simbólica e economia da cultura, tornaram-se conceitos-chave para as políticas públicas para a área.

A invasão bárbara de Gil abriu caminhos para a dimensão plural das culturas: singularidades do existir cotidiano. A gestão Gil deixa-nos, antes de tudo, a condição para não ficarmos reféns das referências exclusivamente corporativas, que procuram dominar hegemonicamente o debate e o espaço político. Cultura como economia da libido, estratégia de resistência aos poderes, re-invenção do humano.

A passagem de Gilberto Gil pelo Ministério da Cultura do Brasil foi uma refazenda: "anoitecerá tomate e amanhecerá mamão" - como ele mesmo disse, ao se despedir.

Mais referências:

Gilberto Gil: lado A e lado B -

Sai Gil entra Juca Ferreira -

Gil, Juca e o Ministério da Cultura -

Gilberto Gil/textos (site oficial) -

3.8.08

Pekin 2008



Beijing 2008 : 1/3 The runway (chinese-english version)

Referências:
Movido por um e-mail de Fabrícia Martins

29.7.08

Momentum: a composição no instante


Momentum - a composição no instante - acontece no Teatro Marília (BH), de 05 a 09 de Agosto, às 20 horas. A entrada é franca. A curadoria é de Dudude Herrmann.

O projeto tem no blog
Converse: Arte Expandida o espaço no qual público, criadores, editores, consultores e curadores publicam textos e notícias sobre criações híbridas, intervenções urbanas, improvisação como lugar de indeterminação e experimentação das linguagens artísticas.

A cada dia de apresentação, um trio de bailarinos/atuantes que nunca trabalharam entre si arriscam diante do público, no procedimento de criação
instant compostion (composição no instante).

A coisa é instigante: um espetáculo/encontro único - uma configuração que não se repete.


Se eu fosse você pegava o seu lugar:

Dia 05/08: André Lage, Andréa Ainhaia e Peter Lavrati
Dia 06/08: Tuca Pinheiro, Patrícia Siqueira e Rodrigo Quik

Dia 07/08: Bruno Bizzoto, Fábio Dornas e Rodrigo Campos

Dia 08/08: Cristiano Bacelar, Maurício Leonard eTana Guimarães
Dia 09/08: Retorno da Diferença


Momentum
está na sua terceira edição. E a novidade desta é que no último dia acontece o Retorno da Diferença - no qual todos os bailarinos/atuantes voltam, incluindo os que participaram das outras edições, para um espaço mais flutuante, com riscos diversos e discussões, envolvendo o público também.

Veja também:

Quik Cia de Dança
Movasse
i Dança
Giovane Aguiar

27.7.08

Deleuze: linguagem como desequilíbrio


"Em filosofia é como um romance: deve-se perguntar 'o que vai acontecer', 'o que é que se passou?', somente os personagens são conceitos, e os meios, as paisagens, são espaços-tempos. Escreve-se para dar a vida, para libertar a vida lá onde está apriosionada, para traçar linhas de fuga. Pra isto é preciso que a linguagem não seja um sistema homogêneo, mas um desequilíbrio, sempre heterogêneo: o estilo aqui rompido das diferenças de potenciais entre as quais qualquer coisa pode passar, se passar, surgir um clarão que saia da própria linguagem, e que nos faça ver e pensar o que permaceria nas sombras..."
Entrevista a Raymund Bellour e François Ewald -
Publicado na Revista Magazine Littéraire - n. 257. set. 1988. Traduzido do francês por Ana Sacchetti. Extraído de ESCOBAR, Carlos Henrique (organizador), Dossiê Deleuze, Rio de Janeiro: Hólon Editorial, 1991.

12.7.08

Revista Polêmica Imagem: o cinema de Ricardo Alves Júnior

Está no ar o caderno Imagem da revista Polêmica, publicada pela UERJ. Neste número, há um artigo meu: Anotações sobre a imagem-corpo nos curtas de Ricardo Júnior. Nele, abordo os dois vídeos premiados, Material Bruto e Convite para Jantar com o Camarada Stálin.

Imagem, corpo, duração, composição, são alguns dos temas tratados.


Imagem do curta-metragem Material Bruto, de Ricardo Alves Júnior.
Fotografia de Byron O´Neill

8.7.08

Do teatro dramático e do teatro performativo I




Pequenos Milagres/Grupo Galpão - Foto Joâo Marcos Rosa

A análise de Lehmann sobre o pós-dramático traz em si um problema: a idéia subjacente ao título de uma superação. No entanto, não é esse, o foco dos estudos de Lehmann. Ele discute, entre outras coisas, a crise da noção de tempo histórico, subjacente ao drama. Aponta, portanto, para as respostas produzidas pelos artistas cênicos. Ocorre que Lehmann expõe as rupturas com o universo engendrado pela junção teatro e drama. Neste aspecto, até mesmo o teatro épico estaria ainda preso à forma dramática, apesar de ter vislumbrado e contribuído para outras teatralidades.

I. Superação do drama?

A condição pós-dramática vem no âmbito dos estudos realizados por Peter Szondi relativos ao drama moderno. Tem a ver, também, com os textos de Heinner Muller, que não mais podem ser entendidos como subjacentes ao universo do teatro dramático.

O problema dessa abordagem é que ela tem como ponto de partida a evolução e crise do drama moderno, nas trilhas de Szondi. Como se o epicentro de um outro teatro (para não dizer novo) surgisse somente em função desse universo.

Fernando Villar, por exemplo, relaciona as criações cênicas que radicalizam procedimentos que ultrapassam as fronteiras do drama muito mais ao âmbito da performance art, mas não exclusivamente às artes plásticas (a teatralidade que despontaria aí), mas também às experiências teatrais da Rússia revolucionária (Meyerhold, formalismo e construtivismo), ao movimento dadaísta, ao Happening etc. Por isso, Villar fala mais de um teatro pós-performance art. Não no sentido de superação, mas que vem contaminado pela performance.

Já o conceito de teatro performativo, formulado por Josette Féral, apesar de não se apresentar, pelo menos no que é do meu conhecimento, numa publicação mais ampla, aponta para uma outra taxonomia. Obviamente, são planos diferentes - cada um desses autores resolvendo ou tentanto resolver problemas específicos: num, a fratura do drama, noutro, a radicalidade performática, localizada no ato performativo.

Digo isso porque há começa a surgir em torno do conceito de pós-dramático um equívoco: de conceito passa a virar uma "coisa". Além disso, ocorre o risco de meramente produzirmos um filtro classificatório. Não existe a "coisa" que seria um teatro pós-dramático, a ser classificado num conjunto, mas sim um conceito que abordaria as forças e potências que, entre outros elementos, fazem eclodir o real na relação atores e espectadores. Aliás, Deleuze é mestre em taxonomias criativas. Não parte de uma sucessão disso depois daquilo, como se o que viesse depois fosse melhor. Até porque seu pensamento é geográfico e não histórico - opera por camadas, extratificações, topologias etc. Quando discute a imagem-movimento e a imagem-tempo, desenvolve dois conceitos que nos fazem entender modos de operar com as narrativas no cinema. Há diferença e é isso, afinal, o que provoca o pensamento. Lehmann, por sua vez, não se enveredou pelo pós-modernismo. Ao contrário disso, ele abordou, com lentes poderosas, o fenômeno de um teatro que não mais possui vínculo interno com o drama. Sintoniza, assim, com o seu tempo e contribui com suas análises para o entendimento de uma vasta e audaciosa produção cênica que não cabe ser classificada de pós-moderna. O problema reside na difusão de uma opinião que busca o must do momento. É sempre algo assim: a última novidade.

O pensamento criativo passa oblíquo sobre isso. Até porque as coisas não se encaixam nessas classificações. A criação cênica, quando instaura poéticas, é singular - opera resistências com as armas de que dispõem e inventam.

Pequenos Milagres, do Grupo Galpão trilha o teatro dramático. E com uma competência maravilhosa. Não é algo anterior às inovações do que seria um teatro pós-dramático. Porém, competências, em arte, como em filosofia e ciência, são singularidades. Ninguém as confere e não serve de modelo para ninguém - se quiser, como inspiração, problema, impulso para a criação. Deleuze, no texto O ato de criação, avisa, entretanto, para tomarmos cuidado com o "sonhos dos outros", para não ser capturado. Você não cria, você mingua. Fabrique seu sonho.

No caso de Pequenos Milagres, vemos as influências que vão do melodrama (uma vertente brasileira e popular que o Galpão, em alguns momentos, assim como outros criadores, como Eid Ribeiro, souberam utilizar nos seus próprios planos inventivos) ao drama moderno, incluindo procedimentos de composição cênica contemporânea. Temos enquadramentos do cinema, proporcionando imagens muito bonitas. Não se pode ver tal espetáculo querendo ver outro, comparando com outra coisa.

Numa das cenas, o ator manipula uma cama de ferro, produzindo um som - a trilha - sublinhando sonoramente o seu diálogo com a mulher. A ação do ator, no caso, tem a ver com a dimensão da teatralidade - das ferramentas que a encenação convoca. Os atores movimentam o cenário no sentido de produzir, também, enquadramentos, recortes etc. Não são funções dos personagens, mas da cena. Nesse sentido, não mais vinculam ao drama, apesar de estarem à serviço do desenvolvimento dramático. São elementos que apontam para uma materialidade cênica presente, por exemplo, no teatro performativo (ou pós-dramático, se quiserem).

Toda a beleza das misturas impuras, como bem lembra Marcelo Kraiser, a partir de Barthes. Ainda bem.

4.7.08

Improvisões: inscrições abertas

Imagem de Glênio Campregher

O edital Improvisões - edição 2008 - está no ar. O projeto já está na sua terceira edição e realiza-se no Teatro Marília/Belo Horizonte. As inscrições devem ser feitas até o dia 30 de julho/2008, de 2ª a 6ª feira, das 14h às 18h, no Teatro Marília, localizado na Av. Alfredo Balena, 586, Bairro Santa Efigênia/Belo Horizonte.

Improvisões fomenta e difunde a improvisação que conflui com o teatro performático, com ênfase na materialidade cênica, na qual se dão relações não hierárquicas entre os meios de corpo (bailarinos, atores, performers, artistas circences), imagem (videomarkers, vjs, artistas plásticos que trabalham com a projeção da imagem etc.) e som (poetas vocais, músicos etc.).

Na edição 2008, Improvisões terá ainda um fórum de debates, no qual serão discutidos os procedimentos, confluências e conexões dessa cultura que associa improvisação e experimentação das linguagens artísticas.

29.6.08

Antonio Negri: pensar o presente



Nos tempos em que tudo se iguala sob o predomínio do capitalismo e suas surpreendentes mutações, a leitura do blog Dossiê Antonio Negri propicia meios para revigorar os sentidos.

Negri abre brechas inusitadas para enfrentar o presente e resistir afirmativamente.


Veja mais:
Negri na Wikipédia